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Filme jovem, ‘Lua Em Sagitário’ aborda reforma agrária

por Fernando Império comentários

No dia 8 de setembro, estreia o primeiro longa de ficção de Marcia Paraiso. Habituada a documentários, a diretora criou uma ficção para levar uma mensagem política, direcionada principalmente aos jovens. “A ideia do Lua em Sagitário surgiu em 2009, da vontade de fazer um filme que fugisse das temáticas usuais dos filmes para o público jovem, e que não se passasse em um grande centro urbano. A realização de documentários me possibilitou conhecer muito do Brasil. Nessas viagens por um Brasil que está além do Rio e de São Paulo, conheci jovens incríveis, que não se sentem representados pelo cinema e pela dramaturgia em geral. Ao mesmo tempo, há ainda nas cidades um grande preconceito em relação a quem vive na zona rural”, explica Marcia Paraiso.

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‘Lua Em Sagitário’ conta a história de Ana (Manuela Campagna), uma jovem de 17 anos, que vive em uma cidade de 5 mil habitantes, que ama rock, que tem dificuldades com sinal de celular e internet, e que se sente entediada em viver em um lugar onde todos se conhecem. Um dia ela conhece um rapaz (Fagundes Emanuel) que vive em um assentamento da reforma agrária. E, de repente, a partir disso, ela percebe por conta própria, na experiência de conviver com ele, de frequentar o assentamento, de conhecer seus amigos, que ele é um jovem que carrega os meus sonhos que ela. “Ana percebe, por experiência própria, que todo o ódio que o pai carrega em relação ao movimento dos sem terra é, na realidade, preconceito, desconhecimento da causa”, relata a diretora.

O roteiro foi escrito junto com Will Martins, que segundo a diretora, foi o responsável por trazer influências que dessem um tom mais jovial ao filme. “De 2009 até 2015, quando finalmente filmamos – foram 5 anos de muitas tentativas de viabilização do projeto – o roteiro passou por diversos tratamentos até chegar no filme que estreia nos cinemas. A participação no programa “teste de audiência”- em São Paulo e Brasília – também foram muito importantes para, exibindo o primeiro corte, podermos chegar à montagem final. Foi um processo longo e bem importante para mim, já que o ‘Lua’ é meu primeiro longa de ficção”.

O filme toca numa questão ainda muito delicada no país que é a reforma agrária. No momento político conturbado como o atual, o longa chega em boa hora e promove uma discussão sobre o tema. “Reforma Agrária é redistribuir de forma justa a terra, reparando um processo antigo onde prevalecem os grandes latifúndios e uma legião de trabalhadores rurais sem terra para produzir. O instrumento jurídico para a reforma agrária é a desapropriação das grandes terras improdutivas, feita pelo Estado. Mesmo com os governos de Lula e Dilma caminhamos muito pouco. A bancada ruralista se mantém forte nas decisões políticas, garantindo a manutenção do modelo colonial, substituindo o trabalho escravo pelo uso de máquinas e agrotóxicos – mesmo assim, até os dias de hoje, ainda há o uso de trabalhadores escravizados nos latifúndios. Com o momento político que vivemos, a reforma agrária é um sonho. Um sonho que permanece vivo nos movimentos sociais organizados no campo e que se concretiza nos assentamentos com novos modelos produtivos, exemplos de sucesso da agroecologia e na formação de uma nova geração rural”.

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Um outro ponto de destaque do filme é a participação especial de Elke Maravilha, recém-falecida e de Serguei. “Eles foram convidados para interpretarem a Ula e o Jones, uma homenagem a essas duas figuras que representam muito da cultura brasileira para várias gerações. Pedi que eles trouxessem muito deles mesmos para os personagens – a Ula veste as roupas da Elke, o Jones usa a camiseta “eu comi a Janis Joplin”. Tanto a Elke quanto o Serguei personificam para mim figuras de espírito livre de preconceitos. Queria tê-los no filme, que essa nova geração, esse público jovem que não cresceu vendo a Elke na TV todos os domingos, que desconhece o roqueiro Serguei e suas histórias incríveis, que entendam que as suas participações são uma referência e uma homenagem aos que sempre lutaram contra o preconceito”, revela a diretora.

‘Lua em Sagitário’ traz uma trilha sonora rock n’roll, buscando bandas independentes do Brasil e da América Latina. “Pensamos a trilha como uma parte da personagem, é uma forma de apresentação e composição da Ana, quando ela escuta música em seu headphone, ela vê tudo em volta como se estivesse em um videoclipe. Até viver na pequena cidade onde vive fica mais interessante a partir da música. A ideia é que a história da Ana, como uma viagem para dentro da personagem, uma história de autoconhecimento e libertação, seja um atrativo em si. Que o público se identifique com esse sentido da musicalidade para cada um. Daí a música vem junto”, completa Paraiso.

Assista ao trailer de ‘Lua Em Sagitário’:

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Fernando Império
Fernando Império

Jornalista, cinéfilo, tesão por inteligência e fã de filmes sem final feliz.

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