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multitela: O poder das escolhas em Looking – O Filme

por Vito Antiquera comentários
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Após quase dois anos escrevendo essa coluna das produções de DNA cinematográfico fora da telona, essa é a primeira vez que esse aficionado que vos escreve o faz assim, descadaramente, em primeira pessoa. E não é uma coincidência: quando assistimos algo que realmente expõe e espelha nossos anseios, dificuldades e dramas cotidianos é quando nos sentimos mais à vontade para falar individualmente. Isso aconteceu comigo em Looking – O Filme, telefilme que encerra a jornada dos personagens da série homônima encerrada após duas temporadas.

A história é uma continuação direta do final da última temporada, ainda que com um salto no tempo: Patrick (Jonathan Groff) retorna a São Francisco após quase um ano de sua partida, quando largou todos os problemas (e amigos) para recomeçar em Denver. Nesse retorno, ele reencontra não somente seus amigos, Dom (Murray Bartlett) e Doris (Lauren Weedman), mas está lá por um motivo especifico: Augustín (Frankie J. Alvarez) vai casar com Eddie (Daniel Franzese). Além disso, Paddy tem que lidar com sua balança amorosa, formada por Richie (Raúl Castillo) e Kevin (Russell Tovey).

Todos estão muito bem, repetindo os personagens que retrataram por duas temporadas; Groff tem a ingenuidade e carisma suficientes para um protagonista, e não deixa sentirmos raiva (o suficiente) de Paddy; Alvarez tem a delicadeza para trazer um Richie extremamente humano, e Laurenn Weedman arranca todas as gargalhadas necessárias com sua indomável Doris e as lições de vida e de como o mundo exterior (mulher hétero ou bissexual?) vê determinados nuances do comportamento daqueles personagens. Uma grande surpresa é Tovey, que faz de suas poucas cenas na tela uma aula de humanidade e experiência.

Em uma hora e meia, todos os anseios e dicotomias de Patrick estão ali – mas também seu irônico amadurecimento mesmo decorrente de uma fuga (física e emocional) dos problemas que as escolhas, mesmo que óbvias, traziam para sua jornada. Há críticas contundentes à série que se estendem ao filme – não vemos muita diversidade étnica nem de tipo corporal, digamos assim, naqueles homens gays de “trinta-e-poucos-anos”. Isso deve ser levantado e, muito corretamente, defendido: é uma história de nicho, e nesse nicho está (mesmo que não completamente) ninguém menos que o fã que vos fala e quase todos os amigos que o cercam. Felizmente, essas são nossas maiores preocupações – e tomamos decisões “de vida”, mas muitas vezes não nos damos espaço para entender que, boas ou ruins, essas responsabilidades devem ser assumidas. O meio termo estendido nunca é saudável para quem quer, essencialmente, viver a vida.

Para todos eles – ou nós, já que estou sendo abertamente eu-lírico – a vida se desenrola quase que exatamente como a vida de todos aqueles personagens: apesar de algumas dificuldades, seguimos a lógica quase que de uma “roda de hamster” em que crescemos, estudamos, trabalhamos, namoramos e vivemos experiências. Algumas vezes, essas experiências saem do formato pré-estabelecido, mais até do que do único ramo da homossexualidade; mas na indecisão de Patrick está o brilhantismo de Andrew Haigh: o peso das (simples ou não) decisões, ou mesmo da falta delas. Como fez em 45 anos, acachapante drama sobre a vida a dois, Haigh encerra Looking de uma maneira delicada e (porque não) talvez esperançosa – mas sempre com o pé no chão.

Em suma, Looking é uma projeção direta de como eu encaro as experiências da vida; precisamos tomar as decisões para que as coisas andem – essencialmente, no campo emocional. E a lição mais importante é que mesmo as decisões mais aparentemente erradas, em determinado momento, trarão impactos para cada amadurecimento. Todas as relações que tive, amorosas ou não, me trouxeram algo – e a cena de Paddy com Kevin, permeado por aquele diálogo por vezes melodramático mas sempre certeiro, é o devido reconhecimento do poder e importância da comunicação emocional via diálogo.

Por isso, não me arrependo de nenhum dos “tropeços”. Com Looking, me vendo e sentindo identificado, nunca me projetarei mais como necessariamente “certo ou errado”, ou em nenhuma dicotomia moral qualitativa besta: seja como homem gay, mas também como ser humano, estou ciente do poder das escolhas que faço.

Assista ao trailer de ‘Looking’:

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Vito Antiquera
Vito Antiquera

Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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Comentários
  • Fellipe Fernandes

    A vida nos congela da mesma forma que a possibilidade de amor (e aqui leia-se a entrega imensa que ultrapassa o egoísmo e chega na paralisia). O carinho desestabiliza e não sabemos como lidar com ele. Looking é uma ode ao receio de amar, ao receio da entrega, ao receio da descoberta fora do já antes imaginado. Não concordo quando você diz que Paddy padece da falta de escolhas que faz. Acho que é justamente ao contrário. As escolhas existem, o que não existe é o risco. Andar na segurança dá a ilusão de que nos satisfazemos, mas a vida é movimento e só se movimenta quem vai adiante, independente do caminho. Acho que o grande problema de todos os personagens (incluindo principalmente Agustín e a propria Doris) é não aceitar que viver dói. é não saber lidar com a frustração da dor e nem com a amargura que resulta das inúmeras projeções que fazemos em outras pessoas, em nossas histórias, nos desejos que temos pré-concebidos por regras sociais ou condutas mutáveis de convívio. Patrick sofre porque não se aceita, porque não reconhece pelo olhar do outro e consequentemente não sabe olhar no espelho. Só é capaz de amar o outro quem tem amor a si mesmo e sabe exatamente o que quer, sem deixar de levar tanto por tradicionalismos ou modernismos que não se encaixam ao que somos realmente por detrás dos nossos olhos, aquilo que só nós vemos e que temos tanto receio (ou medo) em deixar que outros também vejam.

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