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cine clássicos: O som das Olimpíadas

por Will Poliveri comentários
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Oi, saladinos! Quando o assunto é a união entre cinema e esporte, você pode levar alguns minutos para pensar em Carruagens de Fogo, mas com certeza se lembra desta música aqui. Mesmo sendo um dos clássicos definitivos sobre Jogos Olímpicos, o que realmente cravou a produção no imaginário coletivo foi sua música-tema, que se tornou hino oficial das provas de atletismo no mundo inteiro.

Porém, Carruagens de Fogo não se resume apenas a este primor sonoro. Seu enredo, ainda que tradicional, já seria suficiente para fazê-lo figurar em qualquer lista dos melhores momentos do esporte na telona. Isso porque sua história abraça a jornada de dois heróis olímpicos que superaram obstáculos e a si mesmos para conquistar a medalha de ouro.

UM REGISTRO HISTÓRICO

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A ideia do filme surgiu quando o produtor David Puttman se deparou com a história do corredor Eric Liddell. Nas Olimpíadas de 1924, ele se recusou a competir a prova dos 100m rasos porque ela seria realizada em um domingo.

Cristão fervoroso, Liddel seguia à risca a diretriz de que os domingos deviam ser guardados para louvar a Deus, o que impedia a realização de qualquer outra atividade neste dia. Para não excluí-lo dos Jogos, a solução do comitê olímpico inglês foi transferi-lo para a prova dos 400m, que ocorreria em outro dia da semana. Mesmo sem familiaridade com este trajeto de longa distância, Liddel não só competiu como ainda ficou com o ouro.

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Tomando esta história como ponto de partida, Puttman incumbiu o roteirista Colin Welland de transportá-la para o cinema. Além de pesquisar jornais da época e filmes sobre as Olimpíadas, Welland publicou um anúncio no jornal procurando pessoas que viveram na época da competição. E o retorno foi extraordinário!

O roteirista não só entrevistou todos os esportistas e espectadores que responderam ao chamado como teve acesso às cartas escritas por Aubrey Montague, um dos corredores ingleses de 1924. Como o atleta escrevia diariamente para a família contando o dia a dia dos Jogos, Weilland contava com um verdadeiro tesouro histórico nas mãos. Como homenagem, todas as cartas lidas ao longo de Carruagens de Fogo são os relatos originais escritos por Montague.

ATUANDO E CORRENDO

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Para atuar no filme, os atores não precisavam apenas dominar o texto: eles tinham que ser velozes! Por isso, David Puttman e o diretor Hugh Hudson criaram uma rotina de testes bastante curiosa. Primeiro, garimparam no teatro os atores mais talentosos da Inglaterra. Depois, levaram todos para testes físicos em uma pista de atletismo.

E não era só rapidez que estava em avaliação. Corredores desengonçados estavam automaticamente eliminados, pois seus movimentos deviam ser graciosos e minimamente parecidos com os de um atleta profissional. No final, em dúvida se privilegiavam atuação ou preparo físico, produtor e diretor acabaram escolhendo os melhores atores. Era mais fácil ensinar um ator a correr do que um corredor a atuar.

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Até o começo das filmagens, o elenco ficou dois meses em treinamento físico. A rotina era tão puxada que o ator Nigel Havers chegou a deslocar o ombro e quebrar o punho esquerdo em uma queda. Ao chegar ao hospital, porém, os médicos trataram seu ombro, mas não perceberam o punho quebrado.

Com medo de que a fratura o eliminasse do filme, Havers voltou para o hotel, enfaixou o pulso e esperou que ele se curasse sozinho. O punho sarou, mas ficou torto para sempre.

UMA MÚSICA PARA A ETERNIDADE

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A maior ousadia de Carruagens de Fogo sempre foi sua trilha sonora anacrônica. Em vez de músicas orquestradas, muito mais condizentes com o momento histórico do filme, os criadores optaram pelas criações do músico Vangelis, um dos mestres da música eletrônica dos anos 1970 e 1980.

Até o longa-metragem, Vangelis havia composto trilhas principalmente para documentários sobre a vida animal. Mas foi a partir de Carruagens de Fogo que seu nome se tornou referência também na sétima arte. Graças à música-tema imortalizada na corrida na praia, o compositor ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora, a música eletrônica se tornou tendência no cinema dos anos 1980 e Vangelis participou de uma série de trabalhos icônicos, como as trilhas de Blade Runner e 1492: A Conquista do Paraíso.

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O mais incrível é que o tema de Carruagens de Fogo quase não existiu. A ideia do diretor Hugh Hudson era utilizar uma canção que Vangelis havia composto em 1977, chamada L’Enfant. Esta música, inclusive, foi tocada em alto-falantes durante a filmagem da corrida na praia para motivar os atores. Somente após muita argumentação é que Vangelis convenceu o diretor de que criaria algo ainda mais memorável para a cena de abertura. E assim nasceu este clássico sonoro!

Studio na Colab55
Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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