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multitela: A espionagem pós Guerra-Fria em The Night Manager

por Vito Antiquera comentários
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Houve uma época em que espionagem era uma temática mais que corriqueira, tanto no cinema como na televisão – isso, basicamente, na televisão dos EUA. Guerra Fria, glamourização do esforço para manter o mundo polarizado, valorização daqueles que se “sacrificavam” pela pátria e pela chamada “democracia” – tudo isso era necessário como mecanismo de manutenção, além de ser um ótimo caça-níquel. No entanto, a mudança nas abordagens se faz necessária – e é isso que vemos em The Night Manager, uma minissérie exibida em seis capítulos, e transmitida aqui no Brasil, quase que despercebida, em Fevereiro desse ano.

Não há como falar dessa produção/minissérie de responsabilidade da parceria BBC/AMC (esta última responsável por Breaking Bad e Mad Men) sem falar de sua origem e livro homônimo, de autoria de um dos mais importantes criadores do gênero, e também talvez o mais copiado e utilizado nesse nicho: John le Carré. Escritor de grandes clássicos da chamada “literatura de espionagem”, esse autor até subestimado pelos críticos literários é um best-seller há alguns anos, e nos brindou com inúmeras pérolas que já foram adaptadas para o cinema: O Espião que Saiu do Frio, A Casa da Rússia, O Alfaiate do Panamá, entre outros; todas são obras de seu tempo de mundo dividido, de uma espionagem de mocinhos e bandidos.

Por isso, como o audiovisual se recicla quando deve, após a virada de O Jardineiro Fiel, qualquer história intrincada e verossímil de espionagem não pode ter espaço para conceitos quase religiosos de moral. Mesmo assim, talvez surpreenda como The Night Manager é uma pequena (quase?) obra-prima do gênero; o enredo gira em torno Jonathan Pine (Tom Hiddleston), um ex-soldado britânico que trabalha como gerente noturno de um hotel de luxo no Cairo. Logo no começo da história, conhecemos Sophie (Aure Atika), que lhe entrega alguns documentos que conectam seu amente ao milionário e filantropo Richard Onslow Roper (Hugh Laurie). A partir daí, Pine se vê envolvido em muito mistério, jogo de poder, dinâmica de “gato-e-rato” e todo resto – sempre apoiado por Angela Burr (Olivia Colman), uma agende de uma facção apartada do MI6 (Serviço de Inteligência do Reino Unido).

Escrito por David Farr, o roteiro escorrega pouco nos clichês de excessos musicais ou frases de efeito soltas ao esmo; como próprio de um romance de le Carré, a observação, os silêncios e os olhares tomam conta da trama – que não merece mais detalhes para que nada seja estragado e tudo seja saboreado ao extremo nesses poucos seis episódios. A direção da oscarizada de Susanne Bier (filme estrangeiro, Em um Mundo Melhor) pode ter sido superestimada pelos produtores que a escolheram, mas não peca nunca pelo excesso. Todos os closes com mudança de cena abrupta e cenas aparentemente estendidas e sem cortes se fazem necessários – principalmente na maneira como vemos Pine observar sempre tudo e todos ao seu redor, ou mesmo quando Angela desaba a frente de seu companheiro de equipe, explicando por que insiste em prender Roper.

Esse gancho nos leva à escolha do elenco: dentre ótimas atuações, a que mais se destaca é a de Colman. Uma atriz diferente, que foge aos estereótipos e é sempre humana e não excessiva. A cena mencionada acima, coleguinhas, é de arrepiar – ainda mais porque estamos falando de uma agente de inteligência gestante. Sim, meus caros: ela está grávida, na série e na vida real, e isso é ainda mais impactante, pois traz mais veracidade para um personagem que busca incessantemente justiça para os habitantes que sofrem com essas negociações de armas letais e químicas.

Tom Hiddleston e Hugh Laurie, por sua vez, produziram a série – e está meio que nítido que foram os “patrocinadores” da ideia. Laurie tem o cinismo e talento necessários para a persona de Roper – e o faz sem qualquer maneirismo. Hiddleston tem o charme necessário para ser o “espião da vez”, mas é um ator suficientemente humano e naturalista para não deixar qualquer cena cair na mesmice. É uma ótima presença, que pode render um Emmy ao irmão do Thor – aliás, a série foi indicada em todas as categorias principais, incluindo Melhor Série Limitada, Ator, Ator e Atriz Coadjuvante (Laurie e Colman, respectivamente).

Por isso, em meio ao classicismo dos 007s em um ambiente bipolar e cheio de mocinhos e vilões, The Night Manager se destaca por manter o espírito da espionagem atualizado, entregando um produto que não tem pessoas boas ou ruins – mas um mundo dividido do jeito que realmente é: poderosos endinheirados que usam o mundo como um tabuleiro de xadrez, movimentando os peões que sempre servem de escudo, o resto de nós.

Assista ao trailer:

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Vito Antiquera
Vito Antiquera

Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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