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cine mundo: O Cairo é aqui

por Caio Cesar comentários

Com ares de documentário, Cairo 678 é muito mais que um filme denúncia, é um pedido de socorro.

O filme começa com uma das frases mais comuns de ser ouvida da boca dos homens: mulheres são simplesmente loucas. Esta frase é uma dentre tantas que colaboram com a perpetuação do machismo e manutenção da cultura de estupro. Cairo 678 trata exatamente disso, a luta das mulheres em uma sociedade que as diminuem e as objetificam.

Baseado em histórias verídicas, o longa conta a história de três mulheres egípcias que sofreram abusos sexuais: Fayza, Seba e Nelly. Fayza é uma funcionária pública que se desdobra para manter os filhos estudando. Casada com um policial, a protagonista não consegue manter relações sexuais com ele por ser abusada diariamente no ônibus da linha 678 (que dá nome ao filme).

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No início você pode até achar exagerado o fato dela ser assediada diariamente a caminho do trabalho, mas um estudo da ONU em 2013 indicou que 99,3% das mulheres egípcias já passaram por algum tipo de experiência de abuso sexual. No Brasil, uma pesquisa feita pela organização internacional de combate à pobreza ActionAid mostrou que 86% das mulheres brasileiras sofreram assédio em público.

Fayza conhece a outra protagonista por meio de um anúncio televisivo do curso de autodefesa feminina conduzido por Seba. Apesar de ser de uma classe mais privilegiada que Fayza, ela não escapou aos abusos, em uma cena fundamental a personagem é arrastada e assediada por vários homens durante a comemoração da vitória da seleção egípcia de futebol.

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Além de tudo, o machismo de seu marido o impede de apoiar sua esposa, fazendo com que o casal se separasse. Seba, então, passa a viver sozinha e dá palestras para estimular as mulheres a relatarem os abusos e se defenderem. Seu discurso é fundamental para a transformação de Fayza ao longo do filme, de mulher indefesa à justiceira.

A terceira e tão importante personagem é Nelly, atendente de telemarketing em busca de se tornar comediante stand-up, que também foi vítima do ataque de um homem. Diferente de Fayza e Seba, ela consegue levar o assediador à delegacia para registrar o que seria a primeira denúncia por assédio sexual do país. Contudo, é desestimulada não só pelo policial a fazer a denúncia, mas também pela própria família e família do noivo a abandonar o processo.

Cairo 678 deixa muito claro nos três casos que a culpabilização da vítima contribui para o silêncio das mulheres assediadas. Antes dos créditos finais tal informação é confirmada, o número de denúncias ainda é muito pequeno, apesar do assédio sexual ser considerado crime no país.

Assista ao trailer de Cairo 678:

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Caio Cesar
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"Filme grego de novo, Caio?" Sim, eu sou desses mesmo. Um curioso definitivo pelo cinema. Se não for grego, vai ser tcheco, japonês, italiano ou francês, e se reclamar, vai ser iraniano! Pra mim, cinema é espelho, retrato e sequela.

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