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Multitela: All The Way: Brian Cranston além de Breaking Bad

por Vito Antiquera comentários
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Depois de Breaking Bad, esse cine-série-filo assistiria a qualquer coisa que carregasse o nome de Bryan Cranston. Tendo a série como base – considerada uma das melhores da história da televisão – é possível dizer que o químico/gangster/pai de família Walter White é tão multidimensional quanto o talento do próprio intérprete, até então um ator pouco explorado durante seus diversos anos de carreira. Por isso, já hoje parte do panteão da TV americana e mundial, é sempre digno de atenção – e, verdade seja dita, não está menos impressionante do que o esperado em All The Way.

É difícil falar desse telefilme homônimo da HBO sem destacar o quanto o próprio caracterizador de “Heisenberg” foi responsável pela realização. Cranston “bancou” – financeira e artisticamente – a montagem do texto de Robert Schenkkan na Broadway, um sucesso de público e crítica que lhe rendeu seu Tony de Melhor Ator. Depois, levou o projeto para diversas produtoras cinematográficas e, sem financiamento e interesse em um enredo tão específico, foi parar na “mãe de todas as histórias renegadas”: a HBO. E deve ser por isso que temos a impressão que tudo nesse telefilme tem a marca dele.

Na história, acompanhamos os meses que sucederam ao assassinato de John F. Kennedy em Dallas, e como seu vice, Lyndon B. Johnson (Cranston), lidou com todos os eventos seguintes, desde a posse às pressas dentro do avião até os difíceis momentos de campanha para sua escolha dentro do partido democrata – passando por escândalos de percurso, a pressão por direitos civis capitaneada por Martin Luther King (Anthony Mackie), problemas na relação com sua esposa (Melissa Leo) e disputas com seus apoiadores mais conservadores (Frank Langella).

A câmera é investigativa e não poupa closes para explicitar – e por vezes forçar – uma visão mais intimista de Johnson, uma viagem que parte de dentro de suas ansiedades e aspirações para o mundo exterior e “na História como foi escrita”. A direção conservadora de Jay Roach – que já teve momentos melhores na HBO com Game Change – não atrapalha o impressionante desempenho de Cranston, nem mesmo do resto do elenco, que tem as ótimas presenças de uma Melissa Leo assustadoramente diferente e de um Langella surpreendendo até na sua eficiência em tipos odiáveis. A decepção fica por conta de Mackie, que faz um Luther King correto demais e carismático de menos.

Nem mesmo a maquiagem excessiva – que na peça homônima pode não ter sido um problema, mas com câmeras a dois dedos de um nariz postiço causa incômodo –, atrapalha o talento de Cranston. Suas nuances, além de sua capacidade de manter o equilíbrio entre a loucura senil e a lucidez política, são de arrepiar. Ele nos surpreende até quando não esperamos uma lágrima escorrer por motivos estapafúrdios, e principalmente quando não amolece nem se rende ao choro fácil frente a assuntos emocionantes. Na verdade, o ator Bryan Cranston sabe que, mesmo homenageando excessivamente e heroificando os atos de um presidente esquecido pela História, o personagem precisa ser crível para se vender como presidente de uma nação destroçada.

No final, mesmo com maquiagem que atrapalha e vícios de flash-backs desnecessários, All The Way é memorável porque Brian Cranston faz de seu Lyndon Johnson uma personalidade memorável – arrancando (mesmo que exageradamente) esse presidente do registro de rodapé das páginas da História dos EUA para alavancá-lo ao status de herói. Por isso, ao menos uma verdade resulta dessa experiência: estamos diante de um homem que nunca achou que chegaria aonde queria, e que teve que lidar com isso mesmo sem saber se conseguiria. Acreditamos nessa história porque, essencialmente, Cranston acredita – e por isso não precisamos de mais nada.

Assista ao trailer de All The Way:

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Vito Antiquera
Vito Antiquera

Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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