Salada de Cinema

Notícias, entrevistas, perfis e muito mais de tudo que acontece no mundo do cinema.

Salada de Cinema
Colunas

cine clássicos: Quando a Disney se Rendeu às Drogas

por Will Poliveri comentários
Salada de Cinema

Oi, saladinos! Qual foi o primeiro filme que vocês alugaram em uma locadora? O meu foi Alice no País das Maravilhas. E até hoje fico surpreso de ver que essas animações são muito mais antigas do que a minha lembrança. Alice, por exemplo, é de 1951! Dá pra acreditar?

Mais surpreendente ainda é que, há 65 anos, ninguém diria que este clássico da Disney seria celebrado e renderia frutos (como o longa Alice Através do Espelho). Porque se existe um filme para o qual a Disney quase jogou a toalha, esse filme é Alice.

CRIANDO UMA EXPLOSÃO VISUAL

Salada de Cinema

Fã do escritor Lewis Carroll desde criança, Walt Disney sempre sonhou em adaptar seus livros para o cinema. Até que, em 1946, tirou o projeto do papel. O primeiro desafio foi transformar a loucura do País das Maravilhas em roteiro. Entre idas e vindas, no começo Disney achava que as adaptações estavam muito fiéis ao livro. Depois, pedia para ter mais música e comédia. Quando tudo parecia entrar no eixos, ele pedia então que os roteiristas focassem nas passagens mais surreais do universo de Carroll… Depois de passar pelas mãos de treze roteiristas, o filme acabou extravasando o livro original e incorporou vários elementos de sua continuação (Alice Através do Espelho e O Que Ela Encontrou Por Lá).

Do ponto de vista estético, a produção também teve idas e vindas. Após os primeiros rascunhos, Walt Disney achava que os desenhos seguiam a mesma pegada das ilustrações originais de John Tenniel, algo que seria tecnicamente complicado de animar. Quem propôs uma saída foi a diretora de animação Mary Blair, que sugeriu um estilo mais contemporâneo, exagerado e carregado de cores vibrantes. Foi assim que Alice se transformou em uma explosão visual!

CORTE-LHE A CABEÇA!

Salada de Cinema

Após cinco anos de trabalho, Alice no País das Maravilhas estava pronto para estrear. E a expectativa, claro, era gigantesca! Não bastasse o prestígio da obra de Lewis Carroll, a animação vinha na rabeira de Cinderela, que fez um tremendo sucesso no ano anterior. Mas com tanta cobrança, Alice derrapou.

No Reino Unido, o filme era uma unanimidade: desagradava tanto os críticos de literatura quanto de cinema. Para eles, o longa desrespeitava a obra original e transformava Alice em um entretenimento tipicamente norte-americano. Típico ou não, a verdade é que nos EUA a coisa não ia muito melhor. O longa foi recebido com desconfiança pelo público e sua bilheteria fechou bem abaixo do esperado. Acabou que não foi um fracasso, mas também passou longe de ser um sucesso.

Até pelo apego sentimental, Walt Disney nunca renegou o filme. Porém, destinou-lhe o pior castigo daquela época: por mais de 20 anos, a animação ficou trancafiada nos cofres do estúdio, sem ser relançada nos cinemas. E pior: ainda teve seus direitos de exibição vendidos para a TV, onde era picotada para caber na programação. Tanto que, até hoje, Alice é o único clássico da Disney que dá as caras na televisão mundial (não é mesmo, SBT!?).

A SALVAÇÃO

gato2

As coisas começaram a melhorar em 1968, depois do sucesso de Yellow Submarine. Assim como a animação inspirada nos Beatles, Alice no País das Maravilhas passou a ser associado à psicodelia e ao uso de drogas como o LSD. Sua estética extravagante e o seu enredo absurdo foram abraçados pela contracultura, tornando-se um fenômeno entre jovens em idade universitária.

A primeira reação da Disney, claro, foi rejeitar a associação, mandando apreender cópias piratas e proibindo sessões clandestinas. Até que, em 1974, o estúdio magicamente relançou o filme pela primeira vez. Apesar de não haver a confirmação de que o relançamento foi motivado pelo sucesso universitário, é fácil imaginar que o estúdio enxergou ali uma possibilidade de fazer dinheiro. Como a procura era cada vez maior, nada mais justo do que lucrar com o filme. E foi assim que uma das princesas da Disney foi entregue à cultura das drogas.

POR QUE É UM CLÁSSICO?

Salada de Cinema

Desde os anos 1980, a opinião sobre Alice mudou radicalmente. De filme rejeitado pela crítica, a animação ganhou o status de melhor adaptação da obra de Lewis Carroll. Merecidamente, também foi reconhecida como uma das produções mais criativas da história da Disney. Sua popularidade com o público se tornou tão grande que foi um dos primeiros lançamentos do estúdio em VHS.

Ainda assim, não é um filme imune a críticas. Para uma criança, a diversão justamente está na sucessão infindável de personagens pitorescos e no absurdo das situações a que Alice é submetida, mas para alguém mais velho é aí que mora seu maior defeito. Parece faltar a Alice no País das Maravilhas um elo narrativo que dê sentido dramático às situações. E mesmo que seu humor nonsense sirva de destaque perante os demais clássicos da Disney, em muitos momentos ele soa incompreensível, causando mais confusão do que riso.

Salada de Cinema

Lendo o depoimento de Ward Kimball, um dos animadores do filme, faz sentido pensar que o filme padeceu de um excesso de diretores. Como cada um ficou responsável por um personagem que cruza o caminho de Alice (a Rainha de Copas, o Chapeleiro Maluco etc.), criou-se uma concorrência interna na qual eles disputavam entre si para ver quem criaria a sequência mais absurda e alucinada. Como resultado, o filme se torna episódico e fraco no conjunto, ainda que seja um deleite visual como poucas vezes a Disney foi capaz de criar.

Por isso, 65 anos depois, talvez a melhor forma de assistir a Alice no País das Maravilhas seja sem se apegar a grandes exercícios racionais. Ou, então, retornando à inocência infantil e revendo o filme com os mesmos olhos que eu tinha quando o aluguei pela primeira vez.

Studio na Colab55
Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

Veja todos os posts de Will Poliveri
Comentários
Follow my blog with Bloglovin