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Multitela: Em Confirmação, a única certeza é o talento de Kerry Washington

por Vito Antiquera comentários
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Nesse mundo internacionalmente conectado pelo mundo virtual das redes sociais – e também presencialmente distanciado pelos mesmos motivos – é muito bom ver que histórias verídicas já desencadeavam grandes repercussões nos já aparentemente longínquos anos 1990. Por isso, o tema dessa semana da coluna vai ser Confirmação, telefilme produzido e já exibido pela HBO, que conta a história real do processo de indicação de Clearence Thomas (Wendell Pierce) a juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos.

No entanto, o cerne dessa história – e correlação com o impacto social desse acontecido – foi que, durante o processo de aprovação de Wendell, uma antiga funcionária chamada Anita Hill (Kerry Washington, digna de título e parágrafo a parte) veio a público denunciar o indicado por assédio sexual, transformando as audiências meramente formais em um grande palco de discussão do ambiente de trabalho nos Estados Unidos e subsequentes questões de igualdades de gênero e raça.

No roteiro – sóbrio e quase documental – escrito por Susannah Grant (sumida dos holofotes desde o Oscar por Erin Brockovich, mas ainda assim cheia de roteiros-fofura na carreira, como Em Seu Lugar), somos levados à discussão e apresentação de fatos, momentos que antecipam os depoimentos, bastidores de pesquisa, politicagem e alguns (poucos, eficientes e certeiros) momentos de drama intimista de ambos os envolvidos. A verdade pode existir, mas não somos obrigados a escolher um lado – e a direção distante e não julgadora de Ricky Famuyima (realizador de filmes independentes e bem sucedidos, como Dope) somente reitera isso a cada corte abrupto de cena, como se nos intimasse a manter o desapego.

Aliás, seria mentira dizer que não há verdade nem lado a escolher; escolhemos, sim, o lado de Anita Hill, e essencialmente por causa de Kerry Washington. Contida, delicada, e minunciosamente detalhista, Washington não somente replica os anseios e inseguranças de uma mulher sendo julgada mesmo não estando em julgamento, mas também abrange a faceta de professora universitária de Direito que, ao que percebemos, foi tão importante para impostação e organização das falas de Hill durante seus depoimentos – e pelo impacto posterior daquela presença, que acabou por dar voz e espaço a diversos outros casos que vieram a tona posteriormente.

Por isso, e pela verdade nos olhos de Washington em seu melhor desempenho até então, escolhemos não a verdade dos lados de quem está certo, errado, ou mesmo mentindo; escolhemos a coragem de pessoas como Anita Hill e sua importância para a reverberação da voz das minorias, das mulheres, e das mulheres negras que sofreram abusos sexuais em ambientes de trabalho, em casa e em quaisquer outras situações. No final, a grande confirmação pode até não existir na história – o que não chega a ser um demérito e, pelo contrário, se transforma até em um diferencial positivo. O que se confirma, após Django Livre e até – talvez – Scandal, é o talento indiscutível de Kerry Washington.

Studio na Colab55
Vito Antiquera
Vito Antiquera

Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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