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cine clássicos: Como Godard inventou os youtubers

por Will Poliveri comentários
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Oi, saladinos! Posso apostar que muitos vloggers nunca ouviram falar de Acossado, a obra-prima do francês Jean-Luc Godard. Se a gente pensar que o Cinema era o YouTube dos anos 1960, não seria exagero dizer que o sucesso do filme deu a Godard a influência e a visibilidade de uma Kéfera. E olha: não estou nivelando a equivalência artística de ambos, mas sim a forma como eles simbolizam, cada um à sua maneira, uma mudança de rumos do audiovisual (e se você não conhece a influenciadora mais poderosa do Brasil, aproveita que o Cine Teen contou tudo que você precisa saber sobre ela).

O que os youtubers talvez não saibam é que, mesmo sem conhecer nada da Nouvelle Vague, seus vídeos devem e muito a Godard e Acossado!

ERA SÓ TER UMA IDÉIA NA CABEÇA?

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Embora “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” seja o lema criado do Cinema Novo brasileiro (aliás, fortemente influenciado pela Nouvelle Vague), ele também se encaixa perfeitamente ao jeito de trabalhar de Godard. Além de priorizar equipamentos menores e leves, que possibilitavam mais mobilidade e uma equipe mais enxuta, o cineasta começou a rodar Acossado com apenas um esboço da história.

Tendo em mãos o argumento criado pelo amigo François Truffaut (também cineasta e membro da revista Cahiers du Cinéma), Godard usou essas poucas linhas para convencer produtor, elenco e equipe a embarcarem no projeto. Baseado em uma notícia de jornal de 1952, o pouco que se sabia é que o filme contaria a história do jovem que rouba um carro e mata um policial para ir a Paris rever a moça americana por quem está apaixonado. E que no final… (fique tranquilo, sem spoiler!).

O FILME QUE TODOS REJEITAVAM

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Durante a produção de Acossado, Godard estabeleceu uma rotina. Todas as manhãs, ele se sentava em um café para escrever as ideias que queria filmar naquele dia e, em seguida, reunia a equipe e compartilhava o que havia rabiscado. A partir daí começavam o trabalho, que podia durar 15 minutos ou 12 horas, dependendo do quão criativo Godard estivesse.

Como o roteiro era escrito um pedaço a cada manhã, o filme era pensado e rodado na ordem cronológica em que aparece na telona. Sem roteiro, os atores seguiam as diretrizes gerais de cada cena, sendo estimulados a improvisar os diálogos e a se movimentar como quisessem, sem marcações de cena e luz.

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Mas apesar deste modo de trabalho libertário, nem todo mundo estava satisfeito. O produtor Georges de Beauregard tinha certeza de que estava jogando dinheiro fora, pois a rotina de Godard era vista como improdutiva. Já os atores apostavam que o filme seria um fracasso e que sequer seria lançado, de tão ruim que ficaria. Com a equipe técnica, o descrédito era ainda maior e a sensação geral era de que Godard não tinha noção do que estava fazendo.

Mesmo com toda negatividade, Godard não se abalava e transformava problemas em soluções. Se não havia tempo para a prefeitura autorizar as externas, ele filmava sem autorização mesmo. Deste modo, o filme capturava uma Paris menos artificial e mais próxima da realidade. Se não havia dinheiro para alugar equipamentos, ele improvisava. Foi assim que uma cadeira de rodas substituía os trilhos sobre os quais a câmera deslizaria. E se os diálogos não estavam lapidados, o diretor confiava na naturalidade e personalidade dos atores para preencher as lacunas.

O PULO DO GATO

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Após 23 dias de filmagem, Acossado seguiu para a edição. Seu primeiro corte tinha gigantescas 2h50min, uma duração que o produtor Beauregard certamente barraria e que incendiaria os boatos de que Godard era melhor na teoria do que na prática. Por isso, junto com o editor Cécile Decugis, o próprio cineasta assumiu a tarefa de reduzir o filme à metade.

Para chegar a este resultado, Godard e o editor optaram pelo caminho mais difícil. Em vez de excluir cenas de pouca ou nenhuma importância, eles mantiveram tudo que foi filmado, mas encurtaram as cenas e cortaram as pausas. Para isso, usaram em abundância os jump cuts.

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O que é isso? Imagine uma cena na qual uma pessoa caminha em nossa direção. Porém, em vez de vermos toda a caminhada, acompanhamos essa pessoa lá longe, cortamos para ela no meio do caminho e, por último, para ela já bem perto da câmera. Como tudo isso é parte de um mesmo take, não há variação na imagem (nem zoom nem enquadramento) e acabamos vendo um “pulo” entre uma imagem e outra. Esse “pulo” é o jump cut. É um corte brusco que não se faz questão de esconder.

Obviamente não foi Godard que inventou o jump cut, mas seu pulo do gato foi usá-lo pela primeira vez como ferramenta narrativa. Uma decisão criativa que não havia sido cogitada durante a filmagem e que só entrou em cena quando o longa já estava em edição. E foi graças aos jump cuts que Acossado se tornou uma potência visual anárquica e revolucionária!

POR QUE É UM CLÁSSICO?

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Na época de lançamento, Godard repetia em várias entrevistas que o sucesso de Acossado era um grande equívoco. Para ele, o filme era tradicional demais para representar um novo tipo de cinema. Talvez pela falta de distanciamento, o que ele não enxergava é que até mesmo seu roteiro era avançado para a época, principalmente pelo jeito como retratava a mulher de uma forma libertária e feminista. Assim, Acossado não é apenas um thriller policial ou a história de dois amantes condenados à tragédia: ele é um registro antropológico da vida em Paris no verão de 1959 e das mudanças que surgiam na sociedade .

Do ponto de vista estético, o que faz de Acossado um filme tão importante é que, mesmo sem nunca tê-lo visto, dificilmente você ficou imune à sua influência. Ela está em filmes como Corra Lola Corra, na edição frenética dos clipes de música pop e, claro, nos vídeos cheios de jump cuts de qualquer youtuber. Uma prova de que a indústria audiovisual pegou muitas das ousadias do longa metragem para modernizar sua linguagem.

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Para muitos críticos, a obra-prima de Godard se estabeleceu como o filme mais influente desde Cidadão Kane. E mesmo hoje, cinquenta anos depois, Acossado continua com o frescor necessário para seduzir novos espectadores. Inclusive a plateia dispersa do YouTube.

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Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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