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Multitela: Best of Enemies – Uma polarização (quase) mais inteligente

por Vito Antiquera comentários
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Já diria o velho ditado, existente ou recém-inventado, que em tempos de intolerância política e instabilidade econômica, quem consegue manter uma discussão saudável sem partir pra brutalidade é um vencedor. Um debate que consegue equilibrar pontos de vista e até opiniões mais emocionais – ultimamente também gastronômicas, tendo em vista as limitações das opções entre coxinhas ou mortadelas – é uma exceção mais que interessante, tanto de participar quanto de se assistir. Embate de ideias entre esquerdistas e direitistas, liberais e conservadores, sempre serão o cerne da estrutura democrática.

Nos Estados Unidos, como não podia deixar de ser, isso também é uma maneira de fazer entretenimento. E é disso que trata o documentário tema da coluna desta semana, quando a televisão aberta americana – mais especificamente, a ABC – descobriu a possibilidade do debate político ao vivo. Best of Enemies/Melhores Inimigos, que pode ser visto no Netflix, foi dirigido por Robert Gordon e Morgan Neville – este último já ganhador do Oscar de Melhor Documentário pelo recente A Um Passo do Estrelato. No filme, eles contam a história do duelo eterno entre o liberal Gore Vidal – escritor polêmico e renomado e roteirista de cinema – e o conservador William F. Buckley Jr, editor e criador da revista National Review, um arauto quase religioso e partidário do conservadorismo neoliberal estadunidense.

Apesar do tema central do filme ser a série de debates que ocorreram durante as prévias dos partidos Democrata e Republicano para a explosiva eleição de 1968 – com movimentos sociais tomando as ruas exigindo o fim da estratificação social e da guerra do Vietnã, por exemplo – o grande trunfo do filme de Gordon e Neville está na montagem inteligente, mostrando diversos entrementes das vidas desses aparentes antagônicos personagens.

Na realidade, Vidal e Buckley tinham lá suas semelhanças, principalmente na origem familiar: ambos vieram de famílias endinheiradas e tiveram a melhor educação possível – apesar de Vidal não ter frequentado a faculdade, por insistir que deveria “aprender no mundo real”. Além disso, também tiveram tentativas fracassadas de entrar na carreira política – e, acima de tudo, tinham empatia com a televisão como veículo. Apesar das totalmente antagônicas posições políticas e sociais, essa delineação aproxima ambas as personalidades: são seres que gostam de pensar diferente, que têm prazer em discutir com pessoas que têm argumentos contrários aos seus – e que, acima de tudo, são tão egocêntricos que não se olham nem durante a troca de ideias nos debates. É corajoso por parte dos diretores deixarem isso claro: que a discussão política é elitista e que, mesmo para Vidal e suas ideias esquerdistas, tudo é frágil quando elas são defendidas do alto de sua casa de veraneio no sul da Itália.

No fim, dadas às diferenças de opiniões, sabemos que em determinado momento eles sairiam das farpas elegantes para chegarem a um momento de descontrole e xingamentos. E esse clímax chega devidamente estruturado pelo roteiro. Por isso, mesmo após muitos anos, vemos claramente que tanto Vidal quanto Buclkey se ressentiam do que foi dito e ouvido durante aqueles debates em 1968. É a prova viva que, mesmo vindas dos melhores inimigos, as palavras e opiniões são tão importantes que não só machucam, mas deixam marcas invisíveis.

Fazemos do campo das ideias da internet (e da vida real) o mesmo que Vidal e Buclkey fizeram da política na TV: quando o emocional toma conta do cenário democrático, o apelo da ofensa pessoal é a arremate da polarização, e que só serve pra deixar ainda mais zumbis cuspidores de opinião todos os seres espalhados nesse ringue de intolerância descaradamente televisionado. Qualquer semelhança com o atual momento brasileiro não é mera coincidência – afinal, como diria Chacrinha, na TV (ou da TV, nesse caso) nada se cria e tudo se copia.

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Vito Antiquera
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Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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