Salada de Cinema

Notícias, entrevistas, perfis e muito mais de tudo que acontece no mundo do cinema.

Salada de Cinema
Críticas

Rua Cloverfield 10

por Thiago Nolla comentários
Salada de Cinema

Uma jovem moça chamada Michelle (Mary Elizabeth Winstead) dirige por uma rodovia à noite. Ela está chateada e tenta ao máximo ignorar o celular que vibra incessantemente aos seus pés.

Alguns momentos antes, vimos ela em seu apartamento, juntando algumas tralhas e jogando roupas dentro de uma mala suficientes para uma semana, e propositalmente deixando para trás um anel de diamantes. Uma notícia surge no rádio, falando sobre uma misteriosa crise de energia que está causando blecautes em toda a nação, mas Michelle não está prestando atenção. E por que ela deveria? Seu mundo inteiro está caindo em frente aos seus olhos.

Esse é o dinâmico – e talvez um pouco confuso – começo de “Rua Cloverfield 10, primeiro longa de Dan Trachtenberg e um espiritual sucessor de “Cloverfield – Monstro” (2008), do diretor Matt Reeves, no qual um bando de admiráveis hipsters de Nova York são literalmente pisoteados por uma enorme metáfora do onze de setembro. Ao contrário de uma sequência qualquer, o longa de Trachtenberg não pega o gancho deixado no outro filme; na verdade, é provável que ambos nem façam parte do mesmo universo cinematográfico.

Em vez disso, pense no título como um convite do produtor J.J. Abrams, o mestre hollywoodiano das provocações, para se deliciar com o novo filme em função do antigo. Ambos são thrillers macabramente fantásticos e cativantes que utilizam alegorias como se fossem arpões explosivos. E ambos emprestam técnicas de videogames: “Cloverfield” obviamente ao desenvolver sua técnica de found footage e de perspectiva em primeira pessoa, e “Rua Cloverfield 10” ao criar uma trama que se assemelhe à ideia de unir as peças de um quebra-cabeça e resolver os enigmas.

Então quando a jornada de Michelle é interrompida e ela acorda em um quarto de concreto vazio com sua perna acorrentada a um cano, o prazer da cena se direciona ao fato de ela esquadrinhar o cômodo e trabalhar com o que puder para escapar – no estilo gore e instigante do primeiro filme da franquia “Jogos Mortais”.

Tudo o que “Rua Cloverfield 10” é se resume à estética dos jogos de “ache-e-escape”, principalmente quando somos condicionados, assim como a protagonista, em descobrir o que está escondido atrás da porta. Somos enganados até os quinze minutos finais, onde finalmente descobrimos que estávamos assistindo a um filme de ficção científica misturado com suspense.

O anfitrião, por assim dizer, de Michelle é Howard (John Goodman), um homem temperamental que se preparava para um possível fim do mundo há dez anos, estocando quilos de comida não perecível dentro de um bunker, bem como construindo uma versão em miniatura de sua casa – com direito a uma cozinha, dois quartos e uma sala de estar.

“Houve um ataque”, ele diz para ela. “Um dos grandes”. Químico ou nuclear? Rússia ou Irã? Será que foram ambos? Os detalhes ainda não são muito claros. O que realmente importa é que o ar lá fora é irrespirável, e o veneno vai levar de um a dois anos para se dissipar completamente. Até lá, estão presos no abrigo: Michelle, Howard e Emmett (John Gallagher Jr.), um companheiro sobrevivente.

A maior parte do filme toma lugar nesse claustrofóbico e Sartriano inferno, que Trachtenberg, seu elenco, roteiristas e equipe conseguem evocar com uma eficiência invejável. Cada pequeno barulho e diálogo é seguido por um sutil eco; cada passo dado é audível e cada um dos cômodos parece unir-se ao outro, indicando que Howard têm olhos em todos os lugares.

Salada de Cinema

O roteiro, de Josh Campbell, Matt Stuecken e Damien Chazelle, diretor de Whiplash, possuem um meticuloso controle do tom do filme, o qual viaja da tensão claustrofóbica às risadas nervosas com agilidade impressionante. Michelle, Howard e Emmett têm uma relação nada amistosa e, para completar somos introduzidos a detalhes do passado do anfitrião que nos colocam em um oceano de dúvidas sobre sua história original.

O que Michelle vê através da claraboia sugere que Howard está longe de dizer a verdade. Mas ele também um patriarca tradicional que está acostumado a definir limites na vida dos outros – principalmente quando está encarregado de protegê-los. Tal constatação leva o público a acreditar que aquela é sua personalidade e que o medo da protagonista era irracional.

A crescente percepção de que Michelle deve enfrentar e sobreviver ao que existe lá fora nos seus próprios termos é o coração do filme, e Winstead interpreta tal transformação de forma tão sutil e perspicaz que se torna imensamente prazeroso assisti-la.

A última abertura da pesada porta do bunker – cena que traça um paralelo, ainda que reverso, com o gancho da primeira temporada de Lost, também criada por Abrams – nos direciona para um estranho, enervante e relativamente rápido ato final, o qual talvez dependa de uma coincidência a priori forçada, mas explicada com os acontecimentos anteriores (envolvendo uma garrafa de uísque que estava no lugar exato, na hora exata), mas que ainda consegue amarrar as pontas soltas à la Lovecraft.

Parte da intriga que envolveu o Cloverfield original é que nunca descobrimos realmente o porquê de seu título – mas se a resposta for uma franquia moderna aos moldes de Twilight Zone, seria um dos plot twists mais satisfatórios já imaginados.

Studio na Colab55
Thiago Nolla
Thiago Nolla

Fã de carteirinha de Aronofsky e Burton, sempre tem um tempo pra ver um filme de animação. Ou intimista. Ou os dois. Também sonha em poder atuar com suas grandes inspirações – Viola Davis e Eva Green.

Veja todos os posts de Thiago Nolla
Comentários
Follow my blog with Bloglovin