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cine clássicos: Ben-Hur é o épico dos épicos?

por Will Poliveri comentários
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Oi, saladinos! Desde que a Paramount anunciou há dois anos que Ben-Hur seria refilmado, lembro de ficar com uma sensação incômoda. Será que este clássico de 1959 envelheceu tão mal que precise de uma atualização? Para aumentar o incômodo, o trailer desta nova versão, que estreia em 01 de setembro deste ano, só aumentou o desconforto. Pode ser implicância de cinéfilo? Pode. Pode ser chatice do cara da coluna de clássicos? Pode também! Por isso, decidi revistar o clássico pra sanar a dúvida.

Por que foi filmado?

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Por mais que Ben-Hur seja reconhecidamente uma obra-prima, a motivação para sua filmagem foi bem menos artística. Na década de 50, com a popularização da TV nos EUA, a cada ano mais gente trocava a ida ao cinema pelo conforto do sofá e as bilheterias da MGM iam ladeira abaixo. Até que, em 1956, surgiu a galinha dos ovos de ouro: Os Dez Mandamentos. Com o sucesso estrondoso do filme de Cecil B. DeMille, os executivos começaram a revirar seus arquivos atrás de algo semelhante. E foi aí que se depararam com Ben-Hur.

Em 1925, a MGM já havia adaptado o livro Ben-Hur: Uma História do Cristo como um filme mudo e choveu dinheiro nos cofres! Era, portanto, o momento de fazer esse milagre acontecer novamente. Uma aposta extremamente arriscada, já o remake não sairia barato, mas que, se desse certo, afastaria qualquer sombra de falência.

Qual é o drama?

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Como no livro de Lew Wallace, Ben-Hur é focado no conflito entre dois grandes amigos de infância: o príncipe judeu Judah Ben-Hur e o romano Messala. Já adultos, Messala retorna a Jerusalém como capitão do exército e sua missão é colocar fim à insatisfação dos judeus contra o Império Romano. Apesar da amizade, Ben-Hur se nega a denunciar seus próprios conterrâneos, o que provoca a ira de Messala. Num golpe do destino, o militar prende a família do judeu e o envia como remador para os navios da frota romana. Mas Ben-Hur consegue escapar da escravidão e volta para se vingar do ex-amigo.

Como se tudo isso já não fosse enredo suficiente, o filme ainda acompanha, como pano de fundo, a jornada de Cristo. Durante todo o roteiro, em vários momentos a trágica jornada do filho de Deus se cruza com o sofrimento de Ben-Hur.

Rolou treta nos bastidores?

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Como Ben-Hur era a última chance de salvar a MGM, ele deve ter sido cuidadosamente planejado, certo? Quem dera! Faltando 3 meses para as filmagens, ainda não havia sequer um roteiro definido! Para ter ao menos com o que se guiar, o diretor William Wyller levou para os estúdio Cinecittà, na Itália, uma das 40 versões escritas até então, assinada por Karl Tungerg. Porém, ao chegar à Europa, ele logo exigiu que o roteiro fosse reescrito. Quem começou a polir a história foi o romancista Gore Vidal, que reescreveu 70% dos diálogos (tudo que se passa até a corrida de bigas, para ser mais exato).

No entanto, por divergências criativas com Wyller, Vidal acabou afastado do projeto e substituído por Christopher Fry. Com a corda no pescoço, o diretor começou a rodar o filme mesmo sem o roteiro estar pronto e a desorganização era tão grande que tudo que Fry reescrevia em um dia era imediatamente filmado no dia seguinte.

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Agora a maior das tretas! Com o filme finalizado, Wyller se negou a creditar Gore Vidal como roteirista e Christpher Fry não aceitou assinar sozinho. Sem consenso, o Sindicato dos Roteiristas decidiu creditar o primeiro autor, Karl Tungerg. A briga foi tão estrondosa que o único Oscar importante que o filme não levou foi justamente o de Melhor Roteiro Adaptado.

Outro sinal da falta de organização: somente após escalar o elenco todo é que William Wyller percebeu que havia muitos atores de olhos claros. Sobrou para o Stephen Boyd, que precisou usar lentes de contato castanhas para viver Messala.

Os protagonistas eram gays?

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Em 1995, Gore Vidal contou no documentário The Celluloid Closet (1995) que pediu a William Wyller que dirigisse Ben-Hur e Messala como se fossem ex-amantes. Em sua concepção, os dois haviam tido um envolvimento emocional na juventude e, ao retornar a Jerusalém, Messala tentaria retomar a relação, enquanto Ben-Hur o esnoba. Para o roteirista, o sentimento de rejeição era a única explicação para o ódio que nasceria entre eles. A insistência de Gore teria sido, inclusive, um dos maiores motivos para seu afastamento do projeto.

É difícil provar se a orientação do roteirista foi realmente seguida pelo diretor, já que oficialmente Wyller sempre negou ter tido essa conversa com Vidal. Muitos historiadores, no entanto, afirmam que o envolvimento amoroso dos personagens não era segredo nem mesmo para o machão Charlton Heston e que Stephen Boyd foi sim dirigido nesta linha.

Por que é um clássico?

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Mesmo 57 anos após seu lançamento, é difícil negar a Ben-Hur o título de épico dos épicos. Ainda que Cleópatra, em 1963, possa ter sido maior em termos de produção, é a história do príncipe judeu traído pelo melhor amigo que ecoa na mente quando se fala de cinema épico. Um mérito principalmente de sua história, que continua atual e serve como alegoria para qualquer conflito no qual uma pessoa precise lutar contra a opressão e a injustiça, mesmo pagando um alto preço por isso.

Em termos de produção, Ben-Hur também é uma referência definitiva. O filme introduziu a noção de que a ambientação e as roupas de filmes de época deviam ser gastas e sujas, mostrando as marcas do tempo. E se sua fotografia, com sombras e penumbras, continua inovadora, foi a clássica corrida de bigas que estabeleceu muitos dos elementos de direção e edição para qualquer sequência de corrida. Uma excelência técnica que inspirou de Gladiador, de Ridley Scott, à corrida de naves em Star Wars I: A Ameaça Fantasma.

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Por isso tudo é tão difícil imaginar que a refilmagem de Ben-Hur, por mais que explore aspectos diferentes da história, conseguirá fazer frente ao filme de 1959. Seu grande mérito talvez seja reduzir as longas 3h40min do filme clássico para uma duração mais compatível com a plateia atual (ainda que isso seja somente uma hipótese, pois sua duração ainda não foi divulgada). Até sanar todos estes receios, talvez seja a oportunidade perfeita para conhecer ou rever um dos maiores épicos que o cinema já produziu (e que dificilmente produzirá outra vez).

Studio na Colab55
Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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