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Gabriel Mascaro, diretor de Boi Neon

por Lilian Ambar comentários
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“Boi Neon”, filme de Gabriel Mascaro, nos convida a embarcar em uma experiência intensa a partir da história do vaqueiro Iremar e dos seus colegas de trabalho Zé, seu parceiro de curral, e Galega – uma dançarina, motorista do caminhão e mãe da audaciosa Cacá.

O caminhão que transporta a improvisada família pelas estradas da Paraíba e do Pernambuco também embala os sonhos de Iremar, protagonizado pelo ator Juliano Cazarré. Durante o dia, o vaqueiro prepara os bois antes de soltá-los na arena, mas à noite vislumbra figurinos de lantejoulas e costura roupas para a Galega (Maeve Jinkings – O Som ao Redor e Amor, Plástico e Barulho).

O elenco conta ainda com Vinicius de Oliveira (Central do Brasil e Linha de Passe), com a revelação Alyne Santana, que vive Cacá, e com o vaqueiro Carlos Pessoa, que surpreendeu com sua atuação.

Boi Neon, que estreou nacionalmente no dia 14 de janeiro, já foi exibido em mais de 30 festivais, acumulou 14 prêmios – incluindo 4 de melhor filme – e será distribuído em 15 países.

O filme nos leva a uma viagem inesquecível, por um Nordeste contemporâneo e em desenvolvimento, onde personagens de identidades densas nos apresentam um cotidiano árido e controverso.

Conversamos com o diretor Gabriel Mascaro para conhecer um pouco mais o universo que envolve todas as nuances de Boi Neon.

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1) O filme se chamaria Valeu Boi, mas virou Boi Neon? Por quê? A que se deve a escolha de Boi Neon?
Gabriel Mascaro (GM):
O primeiro era um título ‘trabalho’, algo muito próprio ao imaginário de quem conhece bastante o universo da vaquejada. “Valeu Boi” é a expressão que o locutor evoca quando o boi é derrubado na arena pelo rabo. Mas o nome não funcionava para título, não dava conta da ambiguidade do filme. BOI NEON para mim traz a ambiguidade que permeia o sentido político do filme. Os corpos no filme são corpos biolíticos alegorizados entre a escritura do ordinário e o holofote do espetáculo da cultura de consumo. É um corpo estranho que resiste e que sonha. É também um corpo translúcido, que se despe e que às vezes até ilumina.

2) Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre vaquejada, um evento que não é tão conhecido no Brasil?
GM:
Foi uma escolha muito natural filmar em Pernambuco e na Paraíba, estados que tem a cultura da vaquejada muito forte. Esta região foi apontada por políticos e economistas brasileiros nos anos 60 como a “região problema” do Brasil por causa do histórico de desertificação, fome, sede, fanatismo religioso e das revoltas populares. Na mesma década, o cinema e a literatura foram buscar nesta região a alegoria da luta de classe e a revolução camponesa. O Cinema Novo se apropriou da região enquanto experiência que cristalizou até hoje alguns signos de representação, como a ideia de preservação das tradições culturais, da ideia de valentia quase sacralizada e puritana do homem trabalhador e na possibilidade deste homem culturalmente enraizado trazer novos valores para reparar a crise identitária dos centros urbanos. Hoje temos outro contexto no Brasil. A região cresceu economicamente de forma muito veloz, é cosmopolita, então o filme se alicerça num cenário contemporâneo de prosperidade econômica regendo novos signos, desenhando novas relações humanas, afetos e desejos. É um filme sobre a transformação da paisagem humana. A ideia foi lançar uma nova luz sobre as transformações recentes do país a partir de um recorte narrativo que se segue da vida de um grupo de vaqueiros que vivem na estrada transportando boi para as festas da vaquejada, um dos maiores eventos de agrobusiness do Brasil. Tendo a vaquejada como palco alegórico destas transformações em meio à paisagem monocromática do Nordeste, eu pesquiso as cores que reluzem as contradições do consumo e dilato noções de identidade e gênero em personagens que convivem com novas escalas de sonhos possíveis.

3) O filme é cheio de provocações. Ao mesmo tempo em que mostra um Nordeste cosmopolita e em desenvolvimento, também apresenta a aridez do sertão, junto a cenas nudez (principalmente masculina), de representação de gênero e de bastidores dos eventos do agribusiness. Qual é o pano de fundo desta abordagem tão multifacetada?
GM:
O filme se passa numa região onde as atividades pecuárias e agrícolas agora dividem espaço com um grande polo industrial de confecção de roupas. Durante a pesquisa de escritura do roteiro, entrei em contato com o mundo dos vaqueiros que trabalham nos bastidores da vaquejada e conheci em especial um que trabalhava com o gado e a moda. Muito me marcou a forma como o vaqueiro ritualizava a limpeza dos rabos do boi e em seguida sentava na máquina de costura. E assim foi o ponto de partida para criar um personagem ficcional que acumula esta dupla jornada que mistura no ofício a força e delicadeza, a bravura e a sensibilidade, a violência e o afeto. No filme proponho não necessariamente a inversão de gênero, mas a dilatação destas representações. A partir da ritualização do ordinário, tento não fazer destes deslocamentos de gênero algo sensacionalista, mas sim normalizar essas curvas. E para muito além da psicologia dos personagens, eu engajo o filme através da presença corpórea dos personagens e em todo o entorno que esta coreografia é capaz de mobilizar enquanto experiência. O filme não segue necessariamente a jornada de um personagem protagonista, mas aposta na experiência performática enquanto potência. É um filme de personagens estranhos, de experiências intensas, mas pouco sabemos quem são essas pessoas e porque nos envolvemos com elas. O filme registra o cotidiano e as contradições mínimas de uma rotina de trabalhadores.

Tento iluminar este tema de forma que o filme possa revelar novos contornos, novos relevos, novas erupções, mostrando tanto a violência e o prazer habitando no mesmo corpo. A câmera perscruta os espaços em seus lentos movimentos em busca dos personagens de forma a encontrar o lugar o do corpo, mais do que o lugar do rosto. Aproximar a câmera neste filme era um gesto de esvaziamento. Os planos gerais neste filme devolvem aos personagens a ideia de força, presença, resistência. Os personagens do filme são seres simples, humildes, estranhos e diferentes, mas não querem fugir, e sim sonhar com novos devires naquele mesmo espaço.

4) Como foi a escolha e a preparação do elenco? Quais foram os principais desafios de prepará-los para viver personagens com identidades tão intensas?
GM:
Como eu venho do documentário e das artes visuais, trabalhar com atores deste porte foi um grande exercício de deslocamento. Fui assistido por Fátima Toledo (Cidade de Deus, Tropa de Elite, Céu de Suely) e ela trouxe uma linda experiência para o processo nos ensaios. Porém, tínhamos um grande desafio, que era a duração das cenas, então tivemos um trabalho muito meticuloso para coreografar as cenas ao mesmo que deixá-las porosas.

5) Qual é a principal mensagem que o filme pretende passar?
GM:
Acho que não é um filme de mensagem, não é cognitivo. Acho que talvez seja um filme de experiência.

Assista ao trailer de Boi Neon.

Studio na Colab55
Lilian Ambar
Lilian Ambar

Jornalista, apaixonada Almodóvar e Tarantino, é também fã do cinema brasileiro e argentino. Chora num bom drama, não resiste aos romances e às comédias inteligentes e tem uma queda por boas tramas.

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