Salada de Cinema

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cine brasil: O cinema argentino é melhor que o cinema brasileiro?

por Eduardo Lima comentários
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O cinema argentino vem conquistando, nos últimos anos, fama de um cinema múltiplo e inteligente. Suas nuances artísticas estão sendo exemplos de ditados sobre seu atual momento. Muito dessa fama advém de um processo de maturação com reflexões mais inventivas e originais e a crise política vivida na Argentina nas últimas décadas proporcionou uma nova concepção cinematográfica: explorações minimalistas e realistas de personagens fragmentados que dão o tom de um cinema em ebulição.

A busca de uma identidade argentina depois de anos de uma ditadura horrível (1966-73) e de anos de uma política “democrática” desprezível (1989-99 com o “ilustre” Carlos Menem em destaque) culminou em autores cinematográficos sensacionais como Lucrecia Martel, Daniel Burman, Juan José Campanella, Carlos Sorín entre outros.

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Agraciados com um Oscar de Filme Estrangeiro para “O Segredo Dos Seus Olhos” (2009, do diretor Juan José Campanella) em 2010 e com a indicação recente do filme “Relatos Selvagens” (2014, do diretor Damián Szifron) em 2015, além de muitos outros prêmios e indicações, o cinema argentino vive um furor cultural com seu cinema que perpassa as fronteiras e aparece aqui no Brasil como um cinema “melhor” que o brasileiro.

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Nos cinemas de Argentina e Brasil há uma sensação de modernidade nas comparações que se observa em pensamentos comparativos. O cinema argentino possui um cinema interdisciplinar, desregrado de bases estilísticas e condicionado numa procura de identidade cultural da nação.

Por mais que esse furor se atente a características e opiniões importantíssimas, algo perturbador caminha aos olhos mais hábeis: quem disse que o cinema brasileiro também não faz tudo que o cinema argentino proporciona?
O cinema autoral de Lucrecia Martel e Carlos Sorín, o cinema alternativo de Lisandro Afonso, o “cinemão” clássico de J. J. Campanella e Sebastian Borenztein, o cinema “judeu” de Daniel Burman, o cinema satírico da dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat… Todos esses, e muitos outros, podem ser pensados como autoridade máxima em se tratando de cinema na América latina?

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O cinema brasileiro atual, lembrando sempre desse termo “retomada”, é um cinema propulsor. Tem-se em vários aspectos muitas medidas propulsoras para se caracterizar produções cinematográficas no Brasil. E isso é um espanto, criticamente falando. Nos cinemas brasileiros os filmes “comédias-classe média” são o grande chamariz. Suas temáticas ignóbeis proporcionam grandes públicos por serem “mastigáveis” em demasia. E, claro, quando se pensa em cinema por aqui aparece esse cinema como uma “marca” muito forte.

Já o cinema mais “intelectual” brasileiro é, muitas vezes, relegado a um pedaço da cultura do Brasil. Sua elevação enquanto produtora de arte é sempre deixada de lado ou mesmo renegada como “alternativa”. Um cinema “diferente” e “inteligente” são termos adquiridos no inconsciente coletivo da crônica cinematográfica.
Mas…

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Filmes como “Carlota Joaquina, A Princesa Do Brasil” (1995, da diretora Carla Camurati), “Central Do Brasil” (1998, do diretor Walter Salles), “O Auto Da Compadecida” (1999, do diretor Guel Arraes), “Bicho De Sete Cabeças” (2001, da diretora Laís Bodanzky), “Cidade De Deus” (2002, do diretor Fernando Meirelles), “Amarelo Manga” (2002, do diretor Cláudio Assis), “Carandiru” (2003, do diretor Hector Babenco), “Dois Filhos De Francisco” (2005, do diretor Breno Silveira), “Tropa De Elite 1 e 2” (2007 e 2010, do diretor José Padilha), “A Festa Da Menina Morta” (2008, do diretor Matheus Nachtergaele), “Elena” (2012, da diretora Petra Costa), “Tatuagem” (2013, do diretor Hilton Lacerda), “Praia Do Futuro” (2014, do diretor Karim Aïouz), “Quando Eu Era Vivo” (2014, do diretor Marco Dutra), “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” (2014, do diretor Daniel Ribeiro) e muitos outros, como nos trabalhos de Betse de Paula, Tata Amaral, Juliana Reis, Beto Brant, Paulo Sacramento, o aclamado Kleber Mendonça Filho pelo já clássico “O Som Ao Redor” (2012)… São exemplos de uma infinidade de temas e estilos cinematográficos que no Brasil aflora em abundância de forma crítica.

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A narrativa cinematográfica brasileira possibilita uma gama de temáticas artísticas que fica quase “insuportável” uma análise genérica. E isso, claro, é um primor. Mesmo diante das “comédias-classe média” envenenando a cultura brasileira, o cinema por aqui faz um paralelo interessante e, dependendo da opinião, muito maior do que o cinema produzido na Argentina.

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Sem cair numa demagogia perpétua com os cinemas clássicos dos anos de 1960 e 1970, o cinema brasileiro da retomada criou um paradoxo incrível e pouco observável: é possível uma maturidade técnica e autoral em todos os sentidos. Comédias inteligentes, dramas existenciais ou não, relevos críticos sobre a política, belíssimos documentários (um dos fortes por aqui!), ácidas crônicas urbanas, diversidades sexuais e muitos outros temas são possíveis de se observar nessa miscelânea chamada “cinema brasileiro da retomada”. E tudo isso feito com um zelo autoral pouco visto em cinemas como na Alemanha, Espanha, Inglaterra e, por alguns momentos, até mesmo nos Estados Unidos.

O cinema brasileiro se reinventa com uma força e com uma atitude descomunal, mesmo diante de problemas de variados quesitos. Por exemplo, a cultura televisiva até tenta impor “qualidades”, porém a alternância de autores como Cláudio Assis e Karim Aïouz possibilita um respiro filosófico.

É possível de se sentir um paradoxo incrível, principalmente nessa dúvida entre qual cinema é melhor: o brasileiro ou o argentino. E esse paradoxo leva a uma constatação meio óbvia. O cinema produzido no Brasil e na Argentina são comuns e incomuns em aspectos muitas vezes iguais. São refletidos e inseridos em suas devidas culturas nacionais como um grande “berro” contra uma história de vida nacional enquanto uma “nação cidadã” que, quase sempre, inexiste.

Brasil e Argentina possuem muito mais paralelos do que se imagina. E o cinema dessas duas nações se igualam muitas e muitas vezes. E a pergunta do título poderia ser mais bem formulada dessa seguinte forma: o cinema argentino se parece com o cinema brasileiro em que proporções?

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Eduardo Lima
Eduardo Lima

Eu não escrevo sobre cinema para falar sobre cinema. Eu escrevo sobre cinema para falar sobre nós. Sobre eu, sobre você, sobre todos que vivem e são produtos dessa nossa cultura.

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Comentários
  • Juliana Pogibin

    Quando li o título respondi prontamente: claro que sim, o cinema Argentino é muito melhor! Mas depois de ler o texto repensei minha opinião. Não existe melhor ou pior, cinema não é futebol! Tem filmes ótimos aqui e lá, e todo mundo ganha com isso!

  • Eduardo Lima

    Juliana, obrigado pelo comentário e por ter lido a minha coluna! E o que você diz é essencialmente o que eu tento passar. Valeu!!

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