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made for TV: Olive Kitteridge – A grandiosidade do cotidiano

por Vito Antiquera comentários
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Grandes histórias, filmes épicos, explosões, tramas intricadas e cheias de reviravoltas, efeitos visuais impactantes, sagas de fantasia, orquestras inteiras musicando batalhas, dezenas de câmeras e centenas de figurantes, enquadramentos abertos em localidades paradisíacas – reais ou imaginarias. Grandiosidade e grandiloquência – dois adjetivos que podem ser usados para descrever a grande maioria dos filmes que adentram as salas de cinema espalhadas pelo mundo.

Nada contra qualquer nicho cinematográfico. Na verdade, tudo é válido quando temos uma boa história, com ritmo e bons personagens que nos segurem em uma/duas/três horas de duração. Acontece que, ultimamente, premissas como essas têm garantido bons momentos com muito mais frequência aos aconchegados dos sofás caseiros do que aos ávidos cinéfilos acomodados nas (usualmente) desconfortáveis poltronas dos cinemões.

Sem mais delongas, a indicação e tema da coluna dessa semana do Made For TV é uma minissérie – formato tão interessante e cheio de possibilidades que vem sido retomado pós-terceira era dourada da televisão americana. Olive Kitteridge, baseado em livro homônimo de contos, é uma obra dividida em quatro partes de aproximadamente uma hora cada, que conta a história dos acontecimentos na vida da personagem-título, vivida por Frances McDormand. Acompanhamos seu cotidiano familiar, convivendo com o marido Henry (Richard Jenkins) e seu filho Chris (John Gallagher Jr.) – além de sermos apresentados, aos poucos, aos personagens de uma pequena comunidade da Nova Inglaterra, todos orbitando ao redor do eixo central dramático em Olive.

Poderia ser piegas ou simples, ou mesmo um enredo normalizado sobre a vida no interior dos Estados Unidos. No entanto, a adaptação profunda de Jane Anderson e a direção delicada e humana de Lisa Cholodenko elevam essa minissérie a outro patamar de abordagem dramática – algo que tem se tornado muito comum dentro do nicho de minisséries que a HBO encontrou.

Estamos falando, acima de tudo, de um formato que tem produzido histórias essencialmente humanas, sem reviravoltas ou mesmo grandes mistérios. São personagens vivendo suas vidas de maneira ordinária, e lidando com acontecimentos mais que cotidianos. Em Olive, temos diversos momentos, tão simples quanto brilhantes, que corroboram esse entendimento. E nada disso seria possível sem o grande elenco que foi escalado.

McDormand é um deleite. Com um humor muito particular, chegando ao ranzinza em diversos momentos, a sinceridade e grau pitoresco da personagem poderia facilmente cair no desgosto de qualquer telespectador. É Frances quem segura a caracterização no limiar do humano, expondo a elevada preocupação de Olive com sua família como pilar no auto reconhecimento da história. Um tour-de-force magistral, que merece todas as premiações que, provavelmente, irá receber.

Ainda, mesmo com tantas participações memoráveis – Bill Murray, Zoe Kazan, etc. – há uma a ser mencionada com todos os louros possíveis: Richard Jenkins tem aqui o melhor papel de sua carreira, desenhando um personagem coadjuvante cheio de camadas e nuances, mostrando que o amor entre Henry e Olive é mais profundo do que um batido gesto de gran finale.

Pelo formato, pela simplicidade e profundidade da história, pela recuperação do tão grandioso cotidiano, pelas interpretações magistrais do duo McDormand/Jenkins; nesse embate pela atenção do cinéfilo que vos fala, é possível dizer que a dinâmica sofá-HBO têm levado a batalha da audiência em todos os últimos finais de semana quase que como nocaute.

Studio na Colab55
Vito Antiquera
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Leonino godfatheriano, formado em Relações Internacionais e Economia, com quase vinte anos de olhos vidrados na telona - desde os áureos tempos em que, antes dos 6 anos, já obrigava a mãe a ditar Batman , de Tim Burton, por não ter sobrado nenhum VHS dublado na locadora.

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