Salada de Cinema

Notícias, entrevistas, perfis e muito mais de tudo que acontece no mundo do cinema.

Salada de Cinema
Prepare-se

Ninfomaníaca | Por que o sexo atrai tanto quanto incomoda no cinema?

por Juliana Penna comentários

No último dia 25 de fevereiro, foi divulgado pelo site da Folha de S. Paulo que a Imovision, distribuidora de Azul é a Cor Mais Quente estava tendo dificuldades em lançar a versão em Blu-ray do filme no Brasil, pelo “conteúdo inadequado devido às cenas de sexo”.

Estamos em 2014, ano em que o cinema completa 119 anos de idade, em que foram mostradas – em exibições públicas – cenas de genocídio, mutilações e assassinatos de todas as mais inventivas cores e formatos. Mas ainda assim, somos restritivos em admitir imagens de sexo explícito na primeira divisão do circuito comercial.

Não tenha dúvidas, o sexo nas telas deve ser quase tão antigo quanto o cinema em si. Mais precisamente, o primeiro filme a conter cenas explícito foi lançado em 1905 – e foi rapidamente segregado como pornográfico. Ser um filme “pornográfico”, na Hollywood do começo do século vinte, acima de qualquer outra definição teórica, significava exibição em circuitos limitados, públicos reduzidos, ingressos baratos e distribuição quase inexsistente – em outros termos, fracasso. Com isso, a produção audiovisual do sexo se restringiu a orçamentos baratos, de pouco status e qualidade de roteiro beirando ao grotesto. Se esses são os estereótipos que temos hoje sobre o cinema pornográfico, é porque é assim que ele foi construído para ser – marginal.

Nos anos 30, entre o que era considerado como conteúdo pornográfico, estavam cenas com insinuação sexual, miscigenação, profanidade, uso ilegal de drogas, promiscuidade, prostituição, infidelidade, aborto, violência intensa, homossexualidade, entre outras. Ou, em outras palavras, aquilo que não passava pelo crivo do Motion Picturre Production Code. Surgido principalmente por motivos religiosos, essa espécie de acordo de cavalheiros entre os magnatas de Hollywood funcionava como uma espécie de auto-censura dos grandes estúdios. Uma que diversos diretores, como Hichcock, se divertiam ao tentar driblar. Hoje em dia, os tempos são de fato outros. Não há como dizer que essa restrição já não sofreu suas críticas e rebatimentos. Mas ela ainda existe, e há ainda aqueles que a enxergam de maneira bem simplista – preto ou branco.

Nos últimos anos, além do bastante comentado Ninfomaníaca de Lars Von Trier – que, de quebra, vem em dois volumes – os cinemas do Brasil exibiram uma incrível variedade de títulos contendo cenas de sexo explícito. Entre eles, o já citado Azul É a Cor Mais Quente, O Estranho no Lago, Tatuagem – que faturou o Festival de Gramado- e Jovem e Bela. Filmes que, não só garantiram seu status no circuito, como permaneceram em cartaz em cinemas cults das maiores cidades brasileiras – que ainda assim, significa público e circulação restritas. Mas mesmo nesse cenário, as polêmicas foram várias e infindáveis, dando até notícia em jornal.

E por quê será? Eu, particularmente, não acredito 100% na desculpa religiosa. Sim, religião é um grande entrave quando se fala de arte, – e não só em relação a sexo – mas não é só isso. Se na sua origem, o conservadorismo ocidental tinha tudo a ver com a Bíblia, sua longevidade tem muito a ver com razões mercadológicas e o típico gerenciamento de riscos que existe em Hollywood até hoje. Acabou virando um tabu que ultrapassa, muitas vezes, a fronteira religiosa.

O primeiro filme famoso por conter cenas gráficas de sexo, e ainda assim escapando do ingrato estigma de “pornográfico” e reconhecido como arte, foi o inesquecível longa de Nagisa Oshima, Império dos Sentidos. Isso foi em 1976, e tal filme de tamanho impacto teve que viajar meio mundo para abalar as estruturas. Na França, essa era a época em que Catherine Breillat também lançava seus primeiros filmes, com cenas eróticas e de sexo (não simulado) intrínsecas à trama, como o longa do mesmo ano, A Real Young Lady.

Em Hollywood, podemos dizer que as primeiras iniciativas partiram de William Friedkin, que lançou em 1980, Parceiros na Noite, – considerado homofóbico na época, mas que teve a coragem de mostrar o rala e rola- e do superstar Marlon Brandon, que não dirigiu, mas foi muito responsável pela promoção do filme O Último Tango em Paris, dirigido por Bernardo Bertolucci.

O próprio Lars Von Trier, pode ser citado como um personagem importante dessa história, não só por Ninfomaníaca, mas desde de 1998, com o lançamento de Os Idiotas, e em 2006, com Anticristo. Em ambos, utilizou dublês da indústria pornô nas cenas mais gráficas.

Mas e quando os atores em questão realizam a cena sem dublês? Esse foi o caso de Kieran O’Brien e Margo Stilley no filme 9 Canções, lançado em 2004; e Chloë Sevigny, no filme de Vincent Gallo, O Coelho Marrom, de 2003. Aí o buraco é, de fato, mais embaixo – sem trocadilhos, juro.

Até hoje, o elenco desses filmes responde ao escrutíneo público por ter atravessado a linha profissional estabelecida entre o ator e o dublê pornô – todos eles, até hoje, defendem suas respectivas escolhas nos filmes. Stilley comentou na época, o abuso que sofria (muito maior, diga-se de passagem, que o sofrido por seu colega homem) durante as coletivas de imprensa do filme. “Me diziam que eu era uma puta e uma vadia e “como eu poderia fazer aquilo?”. E que tipo de modelo que eu achava que estava dando às mulheres jovens?”

Tempos modernos ou não, sexo explícito no cinema ainda parece causar uma histeria coletiva entre o público que parece longe de ter fim. Ainda vai ter muito pano pra manga pra esse tema nos próximos anos, aguardem!

Studio na Colab55
Juliana Penna
Juliana Penna

Paulistana, jornalista que assiste a filmes demais e jornais de menos. Mas que acredita estar mais preparada para o futuro por isso. Afinal, não haverá inflação durante a apocalipse zumbi.

Veja todos os posts de Juliana Penna
Comentários
Follow my blog with Bloglovin