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A Grande Beleza | Crítica

por Heitor Machado comentários

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A Grande Beleza já se apresenta em seu título: é um filme visualmente maravilhoso, chegando a ser plástico. Diferente da plasticidade que estamos acostumados a ver no cinema, isto é, a plasticidade dos filmes de época e/ou filmes que usam e abusam de CGI, o filme italiano de apropria dos elementos da vida contemporânea da cidade de Roma – que está em constante oposição à história milenar do local, sempre aparente graças aos sítios arqueológicos espalhados pela cidade. O grande exemplo disso é o apartamento onde o personagem principal vive: um luxuoso flatmoderno, com uma linda vista para o Coliseu.

Em toda sua exuberância, Roma não é mais a cidade que víamos nos filmes clássicos, mas sim uma cidade decadente, ainda que muito bonita; Roma, aqui, se aproxima muito mais da Milão retratada no ótimo Eu Sou o Amor, de Luca Guadagnino. Aqui, o diretor Paolo Sorrentino nos mostra um escritor, Gep Gambardella (o maravilhoso Toni Servillo), nos seus 65 anos. Gep escreveu um único livro há 40 anos atrás, e hoje vive de escrever colunas em jornais. O escritor então circula pela cidade e pelas festas, sempre encontrando figuras conhecidas desse universo e exibindo aspectos da “era Berlusconi” da Itália. Vemos então como a alta sociedade, a política e a religião pautam a cidade e o país.

Acompanhamos então momentos de Gep circulando por esse meio social, e nos deparamos com uma infinidade de situações que são no mínimo diferentes. A alta sociedade de Roma gosta de se reunir para festejar, celebrar, ostentar e falar mal uns dos outros. Em uma das situações mais bizarras, um médico recebe visitas de uma série de pessoas em busca de aplicações de botox. Em um ambiente luxuoso, controlado por senha e assistentes que mais parecem modelos, o médico, inclusive, atende uma freira. Pede para que ela ore por ele, mas não a poupa: cobra os 700 euros da aplicação. Em outra situação extremamente constrangedora, após um velório ninguém se levanta de imediato para segurar o caixão.

Situações como essas são provavelmente recortes dos próprios sentimentos e experiências do diretor em relação à alta sociedade do seu país de origem. Em uma entrevista ao The Guardian, Paolo foi questionado se ele compartilha com seu personagem o cansaço da cultura de celebridade, o diretor afirma: “Sim, esta é uma correspondência precisa entre ele e eu. A forma como ele se sente a respeito das pessoas e do coração e das festas é bem próxima de mim”. Há ainda diversos elementos que remetem ao trabalho de diretores italianos, principalmente da obra de Fellini.

Extremamente subjetivo, A Grande Beleza não pode ser considerado como um filme de fácil digestão – além de longo, sua narrativa é um pouco complexa. Mas é incrível o trabalho da fotografia, assinada por Luca Bigazzi, que faz um ótimo trabalho com grandes angulares. A trilha sonora mistura de tudo um pouco: de eurodance a cânticos religiosos com direito a um pouco de panamericano. É um filme que se desdobra entre sentimento e futilidade, decadência e beleza.

Sem dúvida A Grande Beleza é um bom filme. Ambicioso porém extremamente sensível, é um filme  que tem grandes chances de levar para a Itália o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, e possivelmente o Oscar da mesma categoria.

 

Heitor Machado
Heitor Machado

Quando criança, queria ser diplomata; quando adulto, queria fazer cinema. Com ele é sempre tudo ao contrário. Desempregado, bacharel em Cinema, e apaixonado por todas as áreas. Já fez uns curtas aqui e ali, como Diretor ou Assistente de Arte. Nunca viu Bergman e Truffaut o suficiente, nem a Trilogia Qatsi. Gosto de falar de televisão, mas isso não quer dizer que só fale disso.

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