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Senta que lá vem… “Jogos Mortais”

por Will Poliveri comentários

LawrenceAwakens

De tempos em tempos, um filme de terror altera a forma de assustar e causar medo. Na década de 70, foi “Halloween”. Nos anos 80, “Sexta-Feira 13” e “A Hora do Pesadelo”. Na última década do milênio, Wes Craven mudou as regras do jogo com “Pânico” e a virada para os anos 2000 foi sacudida por “A Bruxa de Blair”. Ainda que a fórmula do terror-documentário continue firme e forte até hoje (taí o fenômeno “Atividade Paranormal”), desde 2004 “Jogos Mortais” mudou os rumos da indústria e deu destaque a um outro tipo de horror extremamente violento e sádico. No entanto, é curioso ver que, apesar de tanta influência, o primeiro filme do serial killer Jigsaw tem problemas narrativos que o colocam bem abaixo dos outros filmes marcantes do gênero. Apenas pela sequência inicial dá pra se ter uma prova disso.

Nela, conhecemos Adam e Dr. Gordon, dois homens que acordam acorrentados em lados opostos de um banheiro imundo. Enquanto se recuperam do susto, ambos tentam entender como foram parar neste lugar. Porém, mesmo com a confusão mental a que estão submetidos, os dois iniciam uma tagarelice interminável! Usando a pior tática de um roteiro ruim, ao invés de transmitirem ações e sentimentos pela atuação, os atores narram todas as suas ações e verbalizam todos os seus sentimentos. Assim, anunciam que vão abrir uma porta enquanto tentam abri-la e revelam que não entenderam uma mensagem enquanto fazem cara de paisagem. Uma falação que, ao invés de cativar o público, torna a dupla irritante justamente por não deixar os espectadores entenderem o filme sozinhos.

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Outro exagero é a capacidade dedutiva do Dr. Gordon, que tem adivinhações geniais mesmo com o pouquíssimo conhecimento da situação em que estão metidos! É de fazer inveja a qualquer Sherlock Holmes ou Mãe Dinah! Ao ver um relógio na parede, por exemplo, ele logo conclui que o assassino quer que eles saibam que horas são, algo que se confirma quando eles ouvem as fitas no gravador. Quando ambos falham ao serrar as correntes, o médico deduz que o vilão quer que eles cortem os próprios pés, uma afirmação que, além de absurda, ainda entrega de bandeja ao público o clímax angustiante e surpreendente do fim do filme.

Analisando o legado de “Jogos Mortais”, que já chegou ao sétimo filme, me pergunto: como um longa com esses defeitos pode ser tão influente? Pra mim, sobram apenas duas explicações. Primeiro, que os filmes saciam a sede de sangue do público. Embora o primeiro filme seja mais um suspense policial que um conto de terror, as continuações foram construídas para explorar exclusivamente o aspecto mirabolante das mortes e seu potencial gráfico, com direito a torturas cada vez mais fortes e explícitas. E segundo, que os roteiros empregam com maestria a técnica do “elemento surpresa”. Colocadas estrategicamente no fim do filme, as maiores revelações ocorrem nos últimos minutos e encerraram a projeção em clima apoteótico. Deste jeito, por mais defeitos que o filme tenha apresentado, a última lembrança de um espectador de “Jogos Mortais” é que ele foi surpreendido de uma forma que não esperava, ainda que ao longo do filme o público tenha sido subjulgado e menosprezado.

Ou seja, quando se trata de Jigsaw, a última impressão é a que fica.

Studio na Colab55
Will Poliveri
Will Poliveri

Jornalista e roteirista, viu Titanic 7 vezes no cinema. É fã do Batman (até nos filmes do Joel Schumacher) e canta na rua quando chove. Colecionador compulsivo, tem mais de 500 filmes na estante.

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