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Especial 360 – Multi-idiomático

por Reinaldo Glioche comentários

Quem nunca se aborreceu com aqueles filmes sobre a Roma antiga em que todos falavam inglês? Pois é, a licença poética foi perdendo vez em nome do realismo. Pelo menos em algumas das produções mais recentes patrocinadas pelo cinema americano. O primeiro sintoma disso, sem sombra de dúvidas, é que hoje Hollywood – de olho no mercado internacional – não só importa mão de obra estrangeira como estabelece políticas de co-produção. É o caso de “360”, novo filme do brasileiro Fernando Meirelles. É uma co-produção entre França, Brasil, Inglaterra e Áustria com elenco internacional composto por vultosos nomes do mainstream hollywoodiano como Rachel Weisz, Jude Law e Anthony Hopkins.

“360” não tem medo de sua ambição e apresenta diálogos em seis línguas distintas: inglês, português, árabe, francês, russo e alemão. Não seria possível constituir o arrojado painel cultural desejado pelo cineasta se toda a interação emocional se desse apenas em inglês.

Essa ideia globalizante, no entanto, não é um sintoma apenas das novas bifurcações nos mecanismos de produção desses longa-metragens. Mel Gibson assombrou o mundo quando fez todo o elenco de “A paixão de Cristo” (2004) aprender aramaico, uma língua morta, para o filme. Em busca da veracidade da ação filmada, Gibson – ainda que haja resistência em admitir isso em Hollywood – abriu novas fronteiras para esse tipo de experiência. Difícil crer que sem os mais de U$ 800 milhões de bilheteria de “A paixão de Cristo”, “Babel” (2006) – projeto um tanto megalomaníaco do cineasta mexicano Alejandro Gonzáles Iñarritu – visse a luz do dia. “Babel” foi a primeira produção não falada totalmente em inglês indicada ao Oscar de melhor filme desde que “O tigre e o dragão” (2000), que é falando em mandarim concorreu. “Babel” foi, também, o primeiro filme falado em três idiomas a disputar a principal estatueta dourada.

Quentin Tarantino fez da alternância frequente dos idiomas um objeto de suspense em “Bastardos inglórios” (2009), outro filme falado em quatro diferentes línguas (francês, inglês, alemão e italiano). Um expediente que agrega valor ao filme e falta a produções contemporâneas que abordam o mesmo tema (nazismo); caso de “Operação Valquíria” (2008).
O próprio Fernando Meirelles já se serviu dessa base de realismo oferecida pela presença de mais de um idioma em um longa-metragem. Em “Ensaio sobre a cegueira”, baseado na obra homônima de José Saramago, fala-se português, espanhol, japonês e inglês. O próprio cineasta admitiu o uso das diferentes línguas como um recurso narrativo.

Woody Allen não deixa de ser um novo ingresso dessa onda. No recente “Para Roma com amor”, o italiano divide a cena com o inglês em uma frequência mais assídua do que nos anteriores “Meia-noite em Paris” (2011) e “Vicky Cristina Barcelona” (2008).

Esse cinema multi-idiomático é mesmo uma tendência no cinema de viés mais autoral. Mas a frente comercial, como atestam os sucessos de bilheteria alcançados por alguns desses filmes, está aberta a ideia.

Reinaldo Glioche
Reinaldo Glioche

Jornalista e cinéfilo, não necessariamente nesta ordem. Respira cinema, ama filmes e fala sobre tudo, mas no Salada escreve sobre sexo. Lembre-se: We´ll always have Paris

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