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Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge | Crítica

por Lucas Nascimento comentários

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Sete anos atrás, Batman Begins redefiniu o gênero blockbuster ao abordar um personagem fantasioso com estética e execução realista. Quatro anos atrás, Batman – O Cavaleiro das Trevas elevou o nível de adaptações de quadrinhos (e também de continuações) ao mergulhar ainda mais fundo no psicológico de seu protagonista. E aqui estamos nós com Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que alavanca ainda mais a dramaticidade do Homem-Morcego em uma conclusão épica com escala faraônica.

Ambientada oito anos após o desfecho do filme anterior, a trama traz uma Gotham City em tempos de paz e harmonia, onde o Comissário Gordon (Gary Oldman) colocou fim a praticamente todas as organizações criminosas e Bruce Wayne (Christian Bale) encontra-se tanto aposentado de sua vida Batman, como exilado da sociedade. Uma tempestade aproxima-se quando o mercenário Bane (Tom Hardy) chega à cidade trazendo consigo um plano misterioso de destruição, e a ameaça forçará Wayne a trazer de volta o Cavaleiro das Trevas.

Primeiramente, é admirável a coragem e determinação de Christopher Nolan em continuar a história após o impecável Cavaleiro das Trevas, até porque eu achava improvável que o herói voltasse em uma trama que justificasse sua existência. Ressurge me provou errado, e mesmo que não satisfaça como o antecessor, comprova mais uma vez o imenso talento do cineasta para desenvolver personagens e promover espetáculos. É justamente por passar quase uma hora de projeção apenas situando seus personagens que o clímax explosivo funciona tão bem – pois nele, cada um tem uma função específica que já ia se revelando aos poucos – mesmo que a experiência chegue perto das três horas de duração, trazendo consigo uma montagem intensa que equilibra perfeitamente seus jogadores.

Tendo a trilogia caracterizada por sua abordagem realista, Nolan segue essa linha em Ressurge (as cenas de ação continuam dominadas por efeitos práticos, com uso controlado de CG) ao mesmo tempo em que se mostra o capítulo mais necessitado de explicações “fantásticas” para funcionar. Dentre um problema de coluna resolvido com um tratamento um tanto exótico aqui e bombas nucleares pra lá, no entanto, tudo parece crível graças às eficientes justificativas do roteiro de Nolan e seu irmão Jonathan e da (mais uma vez) excelente performance de Christian Bale, que traz um Bruce Wayne muito mais problemático.

O drama aqui é muito mais pesado e adulto do que em qualquer outra adaptação de quadrinhos. Sente-se uma preocupação legítima com o herói – fora de forma e enfraquecido pelos anos afastado da armadura – quando seu mordomo Alfred (Michael Caine, mais emocional) o alerta para que não reassuma a máscara e que “já havia enterrado membros o suficiente da família Wayne”. E é ainda mais perturbador assistir ao herói sendo brutalmente humilhado pelo vilão Bane em uma luta corporal, já que pela primeira vez na franquia temos um oponente fisicamente superior (o vilão explica suas intenções calmamente e termina com um“… E depois eu vou quebrar você”). Mesmo que Tom Hardy tenha o rosto escondido pela máscara respiratória durante (quase) todo o filme, seu personagem tem uma presença monstruosa e assustadora, e parte disso é fruto do bom trabalho que o ator desempenha com os olhos e a voz; ainda que o efeito sonoro que modifica sua fala prejudique o resultado – afinal, nem todo mundo é James Earl Jones.

Assumindo um papel outrora iconizado por Michelle Pfeiffer em Batman – O Retorno (e ridicularizado por Halle Berry em Mulher-Gato), Anne Hathaway se sai muitíssimo bem ao abraçar o papel de Selina Kyle e fornecer sua própria intepretação. A ladra felina de Hathaway é muito mais interessante por ter sua humanidade explorada (com exceção de alguns trocadilhos do tipo “o gato comeu sua língua?”, não é usado em momento algum o termo “mulher-gato”) e também por enfatizar seu astuto instinto de sobrevivência; numa determinada cena, Kyle se mete em um tiroteio com criminosos dentro de um bar, mas não hesita em largar a arma e gritar como se fosse uma simples vítima quando a polícia aparece.

Vítima também é Goham City, que sofre como nunca nas mãos de Bane: o vilão bombado promove uma série de ataques à cidade (curiosamente, justificando-os como um movimento revolucionário) onde têm destaque uma fria invasão à bolsa de valores e a explosão de um campo de futebol americano. Esta última ganha ainda mais força com a brilhante escolha musical: uma cantoria suave e isolada do hino dos EUA, cujo efeito é assombroso e desperta à memória os ataques terroristas sofridos pelo país na década passada. Merece aplausos o espetacular design de produção de Nathan Crowley e Toby Whale, que garantem às ruas devastadas de Gotham um ar real e perigoso (o uso do gelo na fotografia de Wally Pfister também ajuda a realçar o caos atmosférico); além da inteligente sacada com a sombria prisão dentro de um poço, que não deixa de ser um paralelo com a situação do próprio Bruce Wayne e o tema de ressurgimento.

Em termos de conclusão, O Cavaleiro das Trevas Ressurge é satisfatório e comprova a linearidade com a franquia ao resgatar elementos dos capítulos anteriores (especialmente os de Batman Begins) de forma coesa e sem prejudicar o desenrolar da trama, funcionando perfeitamente como o terceiro ato de uma única história. E vale apontar que, ao contrário do que os executivos da Warner afirmaram, não é impossível dar continuidade ao fim dessa trilogia; o desfecho do filme termina o ciclo iniciado em 2005, mas deixa portas abertas para uma interessante possibilidade.

Christopher Nolan faz de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge o final inebriante que a franquia merece. O ciclo do Morcego se fecha e agora parte para se tornar mais do que uma simples trilogia: uma lenda.

Obs: As cenas filmadas em IMAX ficam impressionantes se vistas em salas do formato. Recomendo!

Obs 2:  Esta crítica foi publicada após a cabine de imprensa do filme, em 19 de julho.

Lucas Nascimento
Lucas Nascimento

Fanático por todo tipo de cinema. Desde os grandes clássicos americanos até as vanguardas europeias e a atual onda de blockbusters que começam a usar o cérebro. Cinema é vida.

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Comentários
  • http://www.facebook.com/profile.php?id=1616904028 Rafael Veloso

    Realmente um filmaço. Muito boa produção.