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cine sexo: Cabras marcados para amar

por Reinaldo Glioche comentários

Brokeback Mountain

Muitos antes do cinema conceber os chamados “filmes de temática gay”, essa superfície já era arranhada em subtextos de um gênero em particular. O western ou faroeste para os fervorosos defensores do português. Um gênero essencialmente americano que serviu como base para a teoria do autor é, também ele, um manancial para leituras acerca da homossexualidade. Introduzir esse tema em uma época posterior ao lançamento de “O segredo de Brokeback mountain” (2005) pode parecer ingenuidade, mas rememorar essa sexualidade latente em “filmes de macho” é, antes de qualquer coisa, um exercício de história cinematográfica.

Os heróis dos filmes de John Ford e Howard Hawks sempre foram tipos solitários. A divisão entre o bem e o mal sempre foi muito clara; o que não impedia admiração mútua entre as partes que, frequentemente, faziam tipos renegados e incompreendidos.

O respeito que esses homens abrutalhados, calados, viris e que enxergavam as mulheres como “diferentes” permite ilações que somente hoje se tornam completas.

“O segredo de Brokeback mountain”, que talvez seja o último grande melodrama americano, aborda tudo isso de forma aberta e sintomática. Mesmo assim, é válido atentar para o fato de que a bela história de amor dos caubóis que se apaixonam nas montanhas do Wyoming é decalcada desse subtexto valioso oferecido por, pelo menos, três décadas de filmes de faroeste. É lógico que o filme de Ang Lee é muito mais prolixo na abordagem que faz dos sentimentos e das circunstâncias da época, mas o contexto não é de maneira alguma inédito.

A ideia de que o gênero privilegia composições endurecidas e unidimensionais como atestam os personagens de John Wayne é rasa. Mesmo filmes mais antigos como “Os brutos também amam” (1953) e “Galante e sanguinário” (1957), que gerou o ótimo remake “Os indomáveis” (2007) já anunciavam uma transformação no gênero consolidada no surgimento de “O segredo de Brokeback mountain”. Os caubóis, após a revisão definitiva testemunhada em “Os imperdoáveis” (1992), se viram liberados para, entre outras coisas, amar.

Justamente por essa liberação, o filme de Ang Lee é tão significativo. A explosão de desejo que se verifica entre esses dois homens que, a princípio não se reconhecem como gays, é mais do que a consagração de uma história corajosa e apaixonante; é a libertação de um gênero de contingências político-sexuais de uma época.

 

Reinaldo Glioche
Reinaldo Glioche

Jornalista e cinéfilo, não necessariamente nesta ordem. Respira cinema, ama filmes e fala sobre tudo, mas no Salada escreve sobre sexo. Lembre-se: We´ll always have Paris

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