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O espetacular Homem-aranha | Crítica

por Reinaldo Glioche comentários

Se desvencilhar da sombra da trilogia de Sam Raimi não é uma tarefa fácil. Em alguns momentos, “O espetacular homem-aranha” é bem sucedido nesse aspecto, em outros tantos, não chega a passar vergonha. Fato é que o cineasta Marc Webb, do bonitinho e pouco ordinário “500 dias com ela” (2009), mostra tato para o cinema blockbuster ao projetar sua expertise indie no desenvolvimento dos personagens.

O grande problema desse precipitado reboot é mesmo o roteiro que, ao pé da letra, reconta uma história que além de recente é plenamente satisfatória. Era necessário para que essa versão ganhasse estofo, uma reimaginação mais fiel ao sentido de reimaginar.

Escrito a seis mãos por James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Kloves, “O espetacular homem-aranha” atualiza o personagem e, influenciado pelo Batman de Christopher Nolan, insere elementos para o desenvolvimento de uma trilogia.

Peter Parker é um nerd, mas um nerd abusadinho. A relação com o tio Ben acaba um tanto esvaziada nessa nova versão pela angústia de Peter sobre as circunstâncias da morte de seu pai – em um arco visivelmente guardado para depois, mas que deixa um baita de um anticlímax no primeiro filme. Não fosse pelo talento sempre bem adornado de Martin Sheen na pele do tio Ben, um dos alicerces do “universo aranha” teria se perdido.

Aliás, o filme deve muito a seus atores. Andrew Garfield, desde o momento de sua escolha, já fomentava suspeitas de que seria superior a Tobey Maguire como o aracnídeo. Suspeitas confirmadas. Além do tipo físico mais adequado a Peter, Garfield é melhor ator que Maguire. E mesmo contemplado com um material inferior, faz de seu Peter Parker um jovem angustiado. Mais vulnerável, o ator consegue submergir outra falha clamorosa do texto que já pontua Parker como um herói a espera de seus poderes. Trajetória completamente diferente da que se verificou nos quadrinhos ou da que foi desenvolvida na trilogia de Raimi. Outro ponto que faz o jogo de Garfield melhorar é Emma Stone. A dupla esbanja química em cena e, novamente, faz crível alguns arranjos despropositados do roteiro. Denis Leary e Rhys Ifans, apesar de seu vilão pouco cativante, são outros bons acréscimos a essa nova versão.

A verdade é que o novo homem-aranha tateia um tema muito interessante e cujo mérito por vir a tona é inteiramente de Webb. Tornar-se um homem, em todas as suas possibilidades dramáticas, é muito mais difícil do que tornar-se um herói. E isso pode ser vislumbrado a partir do confronto das relações de Peter com seu tio e com o capitão Stacy (Denis Leary).
Justamente por isso, e, talvez, também pelo orçamento mais contido, as cenas de ação são poucas. Bem realizadas, é verdade, mas bem menos espetaculares do que a atual temporada de verão preconiza.

No limiar, é um filme superior ao que se prenunciava. As boas expectativas em torno de Webb e dos protagonistas se confirmaram e o entretenimento é garantido. Contudo, o reboot – articulado em um texto pobre e cheio de limitações narrativas – se mostrou desnecessário. Talvez, quando voltar aos domínios da Marvel, o homem-aranha conquiste sua versão definitiva. Até lá, Sam Raimi continua com o bastão.

Reinaldo Glioche
Reinaldo Glioche

Jornalista e cinéfilo, não necessariamente nesta ordem. Respira cinema, ama filmes e fala sobre tudo, mas no Salada escreve sobre sexo. Lembre-se: We´ll always have Paris

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