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cine nacional: Caipira por excelência

Publicado em 10/04/2012 / Por: Ricardo F. Santos

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Meu avô, como tantos outros paulistas na primeira metade do século passado, veio do interior para a capital na mocidade. Nascido em Sorocaba, uma das terras com sotaque mais puxado, chegou em São Paulo aos 25 anos para seguir carreira de praça. Se ajustou, casou, criou família e hoje sorri para o bisneto desdentado nos almoços de domingo, na pacata zona norte.

Por mais que se ajuste, no entanto, sempre sobra no imigrante um quê de saudade da minha terra. Cada um a expressa de um jeito: cultiva aquelas músicas do lugar onde nasceu, faz comidas tradicionais, leva para dentro de casa elementos de decoração típicos, conta causos, com sotaque puxado e expressões impagáveis.

Digo isso porque sempre lembro do meu avô quando vejo qualquer cena do Mazzaropi, o caipira por excelência do cinema nacional – que ganhou uma mostra na Cinemateca Brasileira em comemoração ao centenário de seu nascimento. Versões restauradas de filmes como Sai da Frente (1952), As aventuras de Pedro Malazartes (1960) e Um caipira em Bariloche (1973) podem ser vistos até o dia 15 deste mês em São Paulo.

A rigor, a biografia de Amácio Mazzaropi mostra que ele fez o caminho contrário: nasceu na capital paulista em abril de 1912, entre a Barra Funda e Santa Cecília, na zona oeste, e na infância foi para Taubaté, no interior do Estado. Mas não importa; foi conhecendo de perto o interiorano que o ator e diretor pode dar a vivacidade e a graça que se vê em qualquer filme seu.

Seus tipos caipiiiras têm muito em comum com a figura do Jeca Tatu de Monteiro Lobato, mas também uma diferença crucial: enquanto o personagem do escritor é negativado como preguiçoso e doentio, a criação de Mazzaropi é vivaz e arguta, com um raciocínio elaborado e inesperado, além de tiradas sensacionais.

Mazzaropi expressa, com muito humor, todo o choque cultural do caipira na cidade grande – coisa mais difícil de se ver hoje, com o avanço das comunicações. Se esse encontro de duas realidades distantes for ficar pra história, pelo menos que fique conservado com toda a graça e a leveza da bela obra desse singelo caipira.




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