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Entrevistas

Coletiva Wálter Carvalho – Raul Doc.

por Raphael Camacho comentários

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Na quarta-feira, dia 14 de março, aconteceu no Rio de Janeiro uma entrevista coletiva com os realizadores do esperado documentário Raul Seixas – O Início, o Fim e o Meio. Para atender aos jornalistas cariocas o diretor Wálter Carvalho (que cita Coppola, Martin Ritt e dá uma verdadeira aula de cinema), o produtor Denis Feijão e Silvio Passos (fundador-presidente do Raul Rock Club) estiveram presentes e responderam a todos os profissionais com muita simpatia e contando um pouquinho como foi realizar essa grande obra sobre a vida de uma lenda da música popular brasileira, Raul Seixas.

Abaixo o que de melhor aconteceu nesse bate-papo cheio de informação.

- Há alguns anos você participou da direção de um filme sobre o Cazuza. E agora, porque o Raul e porque um documentário?

Wálter Carvalho: Eu não escolhi o Cazuza nem escolhi o Raul, eles me escolheram. Eu fui convidado no Cazuza e no Raul. Quando fui convidado para o primeiro era um filme de ficção, era uma história da vida do Cazuza, baseado no livro da Lucinha. No caso do Raul, o convite foi para um documentário, então quando houve esse convite eu pensei que fosse uma ficção mas não, na verdade era um projeto do Denis um jovem produtor que teve a idéia de fazer um projeto sobre o Raul Seixas, assim ele trouxe o projeto para a Paramount, a mesma me indicou e me apresentou ao Denis para eu dirigir o filme e aí em 2009 começamos essa viagem.

- O que mais te interessou na história do Raul? Porque aceitou o projeto?

Wálter Carvalho: São vários aspectos: você tem um artista irreverente, um compositor, um artista de palco, você tem um tipo de artista que não acontece mais. Hoje em dia a grande maioria dos artistas que surgem na música brasileira e no mundo inteiro são artistas fabricados. Na época do Raul era exatamente a mesma época de Caetano, Gil, Geraldo Vandré, Chico e outros, era o contrário: você quem criava o artista! Você que inventava o mercado. Hoje em dia você escolhe aquele modelito, adéqua-o e inventa ele para um viés mercadológico, a prova disso é que nem todos duram tanto.  Então, Raul é isso, é o início de um momento no Brasil que coincide com a Bossa Nova, a literatura, o teatro de Zé Celso, a poesia, o cinema novo, o Raul não vem só, o Raul vem com a contracultura que era o movimento que acontecia no mundo inteiro. A primeira coisa que começa a acontecer nesse sentido, pelo menos na área do cinema é o Easy Rider, não é à toa que eu começo o filme com Easy Rider no deserto da Califórnia.

- Como aconteceu o processo de pegar os depoimentos para o filme?

Wálter Carvalho : O depoimento é uma luta corporal de telefone, e-mail, carta de todos os elementos possíveis da produção através do centro do projeto, o Denis Feijão. Por exemplo: O Denis iniciou o trabalho de conseguir marcar uma entrevista com o Paulo Coelho e enfrentou as dificuldades de uma pessoa que já vendeu 500 milhões de livros e não tem espaço na sua agenda. No momento em que o Feijão começa a trabalhar essa solicitação de entrevista a gente foi vendo a dificuldade de entrevistar o Paulo, porque o cara tem compromissos pelo mundo inteiro. Era uma solicitação muito grande, eu já estava até pensando na possibilidade de realizar o filme sem a presença do Paulo, o que seria uma perda incomparável. Mas o Feijão não se entregou, continuou batalhando e a gente sonhando com aquilo. Um dia, um programa de televisão fez uma grande matéria sobre o Raul e nesta reportagem o Sílvio Passos falou bem de mim, falou que eu era um cara sério e fez elogios a minha maneira de trabalhar e a maneira que eu estava tratando o assunto. Coincide que o Paulo vê o programa na sua casa, pega o telefone e diz que pode falar com a gente. Eu me lembro do Feijão ligando pra mim, eu estava na esquina da minha casa quando o telefone toca e ele me pergunta: “Tá em pé ou tá sentado?” Porque o Paulo Coelho acabou de me ligar! Eu posso ainda acrescentar, tentando ser breve, quando fizemos a entrevista na casa dele, antes de eu ir pra lá a gente trocou e-mail e ele me falou que eram 45 minutos, 15 para armar o esquema (câmera, luz) e eu tinha 45 minutos para falar com ele. Aí eu falei com o Roberto Menescal, que é um grande amigo de Paulo, para ele me ajudar porque 45 minutos não ia dar. Aí no dia que a gente chegou lá, armamos tudo e ele sentou na minha frente e disse: “São 5 horas”. Aí eu disse: “você não vai querer que a gente fale 45 minutos, pelo amor de Deus, não vai dar tempo.” Como que a gente ia falar da história deles dois em 45 minutos? Assim começamos a gravar, às seis horas ele pediu para parar para ele fazer a oração dele, ele disse que ia ser rápido, até me ofereci para gravar a oração mas ele disse que eu não podia. Em 5 minutos ele estava de volta, assim continuamos. Quando deu seis e meia ele chamou a mulher dele, ele tinha um jantar e pediu pra ela ligar e atrasar o horário do jantar e assim pra encurtar a história a entrevista durou duas horas e quinze. Quando acabou, descemos todos comemorando lá no hall do prédio dele, nisso um técnico de som nosso tinha esquecido algum material na casa do Paulo e voltou para buscar e quando tocou a campainha que abriu a porta o Paulo estava botando a mesa para jantar, ou seja ,o jantar era na casa dele! Ele não atrasou que ia chegar atrasado ele atrasou as pessoas que iam chegar na casa dele, isso demonstra a generosidade que o Mago teve com a gente.

Wálter-Carvalho-Raul-Seixas

- Em relação aos arquivos de vídeo, como foi essa pesquisa?

Wálter Carvalho: Um dos grandes problemas de fazer esse filme foi na questão dos arquivos porque tinham muitos arquivos e muita coisa estava na internet e foi um trabalho de pesquisa muito longo e doloroso porque eu não queria muita coisa da internet porque já eram conhecidas, eu precisava revelar coisas que as pessoas não conhecessem.

- O Zé Ramalho aparece no filme mas não fala nada. Algum motivo porque ele não falou?

Wálter Carvalho: Excelente pergunta. Eu podia falar horas sobre isso. O cinema é uma linguagem que é uma junção de uma linguagem verbal e a visual, o que acontece no mundo hoje é um excesso da palavra sobre a imagem num veículo efetivamente imagético. O depoimento do Zé é sobre aquele encontro que você vê ele tocando, ele me conta sobre e  como foi aquele encontro. Quando eu fui montar o filme, aquela virada que ele dá olhando pro Raul era muito mais forte do que ele dizia, como imagem. O prazer que ele tem na cadeira se virando e olhando pra mim e ficando de costas pra ele e o Raul cantando foi uma coisa que eu descobri na montagem evidentemente, muita coisa você descobre na montagem. Posso te dar dois exemplos: No Poderoso Chefão na sequência em que o pai vai saber que o filho foi assassinado num atentado numa guarita há uma economia de gestos, imagem, palavras, música, diálogos, quando o advogado diz: “O Tony foi baleado” aí ele franzi a testa e não chora e antes ele diz assim: “Você quer me contar alguma coisa…” aquilo pra mim é uma aula de cinema.  Tem um outro filme de um cara chamado Martin Ritt que tem o Woody Allen como ator, chama-se Testa-de-Ferro Por Acaso, nesse filme tem uma cena em que o cara entra num hotel (o ator  está sendo perseguido pelo macartismo) e paga um champanhe e vem assobiando feliz na vida, a câmera fica no espelho quando ele passa pra um lado, quando ele volta pra esse lado você escuta um barulho, bum! A câmera gira, a cortina ta balançando e a janela ta aberta, então o cara se mata fora do quadro. Você não vê que o cara se joga pela janela, no entanto, é de uma força estúpida aquela forma de narrar e não tem uma palavra, é a imagem que fala. Mais ainda, o absurdo da palavra falar sem estar presente o objeto de sua narração. Eu tentei fazer através da imagem para tentar passar uma emoção ao espectador que eu senti na hora quando eu vi o Zé fazer aquilo.

O filme já está em cartaz em muitas salas do Brasil. Não percam!

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