Salada de Cinema

Publicidade
Salada de Cinema/Coluna

A Globo e o bairrismo na cobertura do Oscar

Publicado em 06/03/2012 / Por: Ricardo F. Santos

Oscar -2012-rede-globo

Por falta de palavra mais adequada, chamo de bairrismo, mas outros vão achar mais nomes para descrever a infantilidade a que me refiro na cobertura da Globo no Oscar. Claro que você reparou. Deve ter sido citada no mínimo cinquenta vezes ao longo da transmissão – e multiplique isso por dez se formos contar todas as matérias antes da cerimônia que a mencionaram.

 Por causa da enorme expectativa construída em cima da tal da música ‘Real in Rio’, do filme tipo exportação Rio (Carlos Saldanha, 2011), a decepção quando ela perdeu o duelo contra a trilha dos Muppets na categoria Melhor Canção Original foi semelhante à derrota da seleção brasileira para a Holanda na Copa de 2010.

A única presença brasileira na festa do cinema estava reforçada por Sérgio Mendes, compositor que fez sucesso no exterior com bossa nova à la world music, e Carlinhos Brown, que personifica a imagem que muitos devem fazer da “música exótica” do Brasil. “O Rio de Janeiro merece”, disse Mendes ao canal Globonews. “O Brasil merece”, aumentou Brown ao Fantástico. Nem com isso conseguimos levar a estatueta. A academia americana não concordou com a sólida opinião dos dois compositores e premiou o único outro concorrente, ‘Man or Muppet’.

Não é muito fácil prever as decisões dos jurados ou intuir as qualidades que eles vão levar em conta de uma música; contudo, pela tapada opinião (disfarçada de análise) da Globo, o mérito da canção prescindia de qualquer julgamento artístico: bastava ser sobre o Brazil, o país mais na moda do mundo, ou sobre o Rio, cartão-postal da nação, para ser irresistível. Bom, os jurados resistiram. E a quem caiu mais uma vez na cobertura da Globo viu como esse bairrismo infantil faz a gente perder qualquer critério objetivo em nome de um ufanismo idiota.

Acontece em outras áreas. No futebol, por exemplo, é fácil ver como torcedores fanáticos ignoram qualquer jogada de qualidade que não seja do próprio time, além de exaltar, irritantemente, tudo o que para outros clubes seria medíocre. Ou com jornais que exageram no bairrismo e perdem o bom senso, como o Zero Hora, que já chegou a contar a história de gaúchos em um acidente com um voo internacional antes mesmo de mencionar o resto dos brasileiros, que foram aparecer no sétimo parágrafo.

Esse bairrismo diz que uma coisa só vai valer a pena se tiver um membro daquele grupo a que pertence o leitor ou espectador. E quando isso se aplica ao Oscar, essa estratégia só fica mais evidente – tem que forçar muito a barra para querer emplacar alguma produção na disputa todo ano. Algumas realmente tiveram mérito, como Central do Brasil (Walter Salles, 1998) e Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002) – mas outras parecem mais um lobby descarado. “That’s why we love carnaval”, diz a letra da música. Vender essa imagem de país alegre, com um carnaval cheio de delícias e um povo gentil e acolhedor, já é uma estratégia usada pelo menos desde as décadas de 1930, com Carmen Miranda e aquele asqueroso filme da Disney com o Zé Carioca (Você Já Foi à Bahia?, 1944).

Foi uma boa lição para aprender que vender essa imagem exótica de alegria não dá mais certo. Por mais que seja contestada a qualidade artística dos filmes que ganham o Oscar, em comparação a Cannes e Berlim, por exemplo, a academia americana ainda tem bastante critério. Outra boa lição é ver que o cinema brasileiro não tem cacife (talvez ainda não) para segurar tantas indicações a prêmios internacionais de cinema. O que precisamos é de um sistema mais estruturado e, principalmente, equilibrado de apoios e patrocínios públicos e privados, além da busca de uma linguagem e um tema mais verdadeiramente nacionais – e não artificiais como vemos em Rio.




Compartilhe
Comentários
  • http://www.facebook.com/eduardosantiago.duda Duda Santiago

    Tem que parar de patrocinar filme doido e pós-moderno que nem quem vai na Mostra Internacional de cinema entende. Me achem clichê ou leviano, mas o exemplo argentino pra mim deveria inspirar os cineastas brasileiros.

  • http://twitter.com/AlexPizziolo Alex Pizziolo

    Concordo 100% com o texto e vou além citando o movimento ridículo que se instaurou no twitter no momento da premiação, com tags como #osCarlinhosBrown e #OscardoBrown onde celebridades que nunca demonstraram interesse sobre cinema estavam lá fazendo cobertura da premiação e na hora que a canção perdeu (merecidamente) fez um escarcel chamando a Academia de bairrista. Assim como o filme, a canção “Real In Rio” é uma das coisas mais grotescamente preconceituosas e esteriotipadas dos últimos anos. Eu sou carioca e eu odeio samba, carnaval e acho um insulto um brasileiro fazer um filme como esse pregando mostrar a verdade do Rio de Janeiro.

  • http://www.facebook.com/rolicco Ricardo Santos

    Ah, um equilíbrio entre essas coisas sempre vai ser bom. Mas os filmes como Rio têm muito mais chance de conseguirem um patrocínio privado (além dos incentivos públicos que já conseguem); aos filmes mais herméticos, mais difíceis de entender (ou de agradar muita gente), só resta a verba pública. Acho que eles também são necessários

  • http://www.facebook.com/fabioataide10 Fábio Ataíde

    O cinema brasileiro nao despertou… Ainda que ser o bom moço de Rio e Zé Carioca. Precisamos de um cinema libertador que afirme e reconheça que somos explorados, como em Cidade de Deus, e nao que diga q aqui é um Paraiso. Nós nao acordamos com cotovias nos ouvidos. Devemos parar de infantilizar o Brasil. Nem os americanos acreditam mais nisso. Gostei do texto!