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Oscar 2012 – Tradição ou inovação: quem leva o Oscar?

Publicado em 15/02/2012 / Por: André Sobreiro

O cinema 3D não é novidade para ninguém – o formato existe desde a década de 1920, e somente agora, depois de sucessivas e frustradas tentativas, parece emplacar como produto – mas foi só recentemente que a Academia voltou seus olhos para ele. O recurso não é unanimidade: há quem deteste usar os óculos que criam o efeito tridimensional (a maioria deles ainda incômoda, diga-se a verdade), e há quem o defenda como o futuro da sétima arte.

Sustentam esta teoria alguns nomes de relevo, como Martin Scorsese, Wim Wenders, e Werner Herzog. Esses três importantes cineastas têm algo em comum: fizeram filmes acima da média em que o 3D não se tornou apenas um artifício para alavancar bilheterias. Mais do que isso, alçaram o cinema tridimensional à categoria de arte.

Ignorado pela Academia – mas não pela 35ª Mostra de Cinema de São Paulo – Werner Herzog fez um dos mais curiosos documentários do 2010, “Caverna dos Sonhos Esquecidos”. Com recursos técnicos limitados, o cineasta alemão penetrou numa imensa gruta ao sul da França para registrar os mais antigos vestígios humanos de que se tem notícia. Para tornar a experiência da plateia ainda mais realista, o diretor lançou mão do 3D e o resultado impressiona: o espectador parece estar a poucos centímetros de poder tocar as pinturas rupestres da caverna de Chauvet.

Em direção semelhante seguiu o também alemão Wim Wenders. Embora a carreira do diretor de “Paris, Texas” (1984) e “Asas do Desejo” (1987) seja irregular, o seu documentário “Pina” sobre a carreira da bailarina Pina Bausch roubou as atenções da Academia neste ano. Não à toa, é dado como o favorito na disputa de Melhor Documentário por ter contribuído para a evolução do cinema – é considerado “o primeiro filme de arte produzido em 3D”, embora a fita de Herzog tenha sido lançada um ano antes.

Se a dupla de alemães usou o 3D no documentário, coube a Martin Scorsese aplicar o recurso no cinema comercial de ficção. “A Invenção de Hugo Cabret” caiu nas graças dos críticos americanos por realizar um eficiente casamento entre o 3D e a soberba (embora às vezes excessiva) direção de arte. O mote do filme, uma homenagem às raízes do cinema, também faz com que pareça ter sido feito sob medida para levar a estatueta dourada. Concorre não a um, mas 11 Oscars.

A vitória, no entanto, não pode ser dada como certa. Do outro lado do ringue vem um adversário cujas características soam anacrônicas: mudo, em preto e branco, “O Artista” recupera a linguagem cinematográfica dos anos 20 para também prestar uma homenagem à produção hollywoodiana. Despretensiosa, a produção franco-belga conquistou a crítica na última edição de Cannes, e aos poucos galgou sua escalada a Los Angeles. Para quem acredita ser o Globo de Ouro uma prévia do Oscar, “O Artista” já venceu o prêmio máximo.

Desenha-se, assim, uma disputa voto a voto com vencedor imprevisível, cujo resultado dirá muito sobre o futuro do cinema. Com quase dois séculos de vida, a linguagem cinematográfica dá sinais de cansaço ante a pressão comercial. Se é o 3D ou uma releitura daquilo que definiu as artes cinematográficas como tal que irá nortear as produções futuras, ainda cedo para se falar, mas a cerimônia do dia 26 pode trazer algumas pistas.

Na contenda, o conservadorismo da Academia – que neste ano representado por filmes como “A Dama de Ferro” e “Histórias Cruzadas” – pode pesar: entre uma homenagem ao cinema vinda da França e outra, feita em casa, a escolha natural parece ser a última. Melhor para o 3D, que embora velho, ganha ares de novidade: o conservadorismo nunca pareceu tão transgressor.

* Bruno Machado escreve sobre cinema para o site de VEJA SÃO PAULO

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