Eu não lembro qual era a primeira imagem que tinha do cinema brasileiro; pra falar a verdade, acho que não tinha imagem alguma. Até o fim da minha adolescência, a massa informe de filmes que eu imaginava como produção nacional me parecia desinteressante, ruim e pouco distribuída, e os estrangeiros pareciam estar a quilômetros de distância.
Quando deixei de ser deslumbrado por explosões e efeitos especiais, fui reparar em outras coisas, um bom roteiro, um conteúdo construtivo, bela fotografia, enquadramentos, e daí passei a considerar com mais carinho nossa produção. A levar em conta a história do nosso cinema, de que nunca tivemos tradição de efeitos especiais tremendos nem orçamentos hollywoodianos, e a grande maioria dos cineastas tinha que se virar com o que tinha – e aí que foram produzidas coisas belíssimas.
Meu conhecimento superficial da história do cinema brasileiro só me permite lembrar da Vera Cruz, companhia cinematográfica que funcionou em São Bernardo do Campo no início da década de 1950. Seu objetivo de tentar seguir os moldes dos enormes estúdios de Hollywood teve apoio financeiro de muitos empresários, mas a iniciativa não se provou viável, e a produtora faliu. Outras companhias da época que tentaram lograr nessa tarefa seguiram o mesmo caminho.
Lembro em seguida da chanchada, com produções bem populares e forte apelo comercial, mas que parou de dar certo poucos anos depois, e do Cinema Novo. Aquela coisa do “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” é muito visceral na produção brasileira. Imagino que o pensamento que deu origem ao lema tenha sido “Não temos um puto no bolso e queremos produzir cinema engajado, que vamos fazer?”
Vêm o aumento de público nos anos 1970; a falta de grana (olha ela de novo) e a proliferação de curtas-metragens na década seguinte; uma consolidação nos anos 1990; e nesse século, que nos custa lembrar que já fechou uma década, deu pra perceber uma profissionalização enorme. Creio eu, que não sou especialista porra nenhuma, que as boas produções recentes são efeito de uma ótima antropofagia do estrangeiro e de uma maior consciência do cinema como um bem nacional, uma apropriação da linguagem cinematográfica para os nossos moldes.
Só bem recentemente, com incentivos culturais do governo, patrocínio de bancos e com a Globofilmes, esse monstro, deu pra ver produções mais refinadas do ponto de vista técnico: com um tratamento de imagem impensável décadas atrás, figurinos e cenários opulentos, filmagens em milhões de lugares diferentes e efeitos especiais bem trabalhados. O exemplo mais recente dessa categoria parece ser 2 Coelhos (Afonso Poyart, 2012), que ainda não consegui assistir mas assim que conseguir comento aqui.
Mesmo assim, não consigo deixar de ter mais carinho pela produção de baixo orçamento. Parece que a própria história de como o filme foi feito é mais heroica, com figurinos improvisados, pagamentos atrasados e patrocínio até da padaria da esquina pra conseguir alimentar a equipe. Cinema grande, com orçamento de dezenas de milhões de reais, tem uma obrigação moral de apresentar resultados maravilhosos. Agora, se um filme mambembe desses impactar o espectador com uma história singela, uma narrativa emocionante, o mérito dele é infinitamente maior.
O que mais me impressiona é que produções que representam o triunfo do mais frágil parecem estar profundamente entranhadas na história do Brasil. Talvez, quem sabe, isso tenha influenciado de alguma maneira o nosso julgamento estético.