Paris, virada e alvorada do século XX, prostíbulos de luxo tornam-se evidentes diante de uma sociedade em transformação, no contexto político, artístico, literário e arquitetônico. Apollonide é uma “maison close”, um bordel mais refinado ao qual atraía homens do alto escalão: do governo, pintores, produtores de tecido.
Diante desse cenário de comércio de mulheres, belas prostitutas, podemos dizer que essa produção de Bertrand Bonello é pornográfico, certo? Errado. A questão chave do filme não está no apelativo, no explícito, ou até mesmo de tentar atrair pela vulgaridade. Pelo contrário, as ações delatam o oposto, o oculto, um olhar investigativo, cuidadoso com representar fielmente o que realmente eram essas prostitutas de luxo. A produção artística acompanha esse zelo, deixando claro a quem assiste a impressão de estar no auge da Belle Époque.
O único momento em que a película sai do cenário da maison, é para um dia de lazer no campo. Naquele momento copiosamente há uma referência das pinturas impressionistas. Como se fosse uma análise viva de um quadro de Monet. É intrigante esse olhar do diretor, especialmente por sempre tratar da nudez, de certa forma polêmica ou impactante, mas o foco está na inocência dessas mulheres.
Elas, as damas de serviços sexuais, estão a espera muito mais do que um pagador de suas dívidas, mas a espera de um príncipe, como nos contos. A ingenuidade. A eterna criança interior que submete a acreditar na pureza preservada dentro de si. Mesmo que seu corpo seja aniquilado pela ferocidade dos seus clientes.
Os carinhos entre elas trocados como consolo do que não recebem. Do que alimentam ou vivem a procura.
Nenhuma está no foco principal. Todas representam a fragilidade que compõe a natureza feminina em sua particularidade.
Os acontecimentos do roteiro permeiam pela crueldade em que Madeleine sofre um corte na boca por um dos clientes. Seu rosto fica dilacerado com aspecto de estar sorrindo.
Um grande ponto a ser observado, é a introdução de um livro ao qual um dos clientes presenteia Samira. O mesmo relata um estudo antropométrico sobre o tamanho do cérebro. Diz-se que as prostitutas e ladrões são propensos a cometerem atos de desequilíbrio físico devido ao emocional, ou efeitos retardados por terem simetria do crânio menor. Esse ponto explica o porquê elas ainda vivem tardiamente a infância, disputando as bonecas das filhas menores da proxeneta.
A trilha sonora, também executada por Bonello, proporciona sensação de leveza. Tão importante quanto um personagem do filme. Um contraponto com sua época, pois a versão de Lee Moses da música Bad Girl é de 1967, e nessa cena quando a música entra em cena, as garotas estão cruas em sua essência, livres e aprisionadas correndo atrás de seus fantasmas e medos. Ali estão libertas de seus vícios, doenças, da morte.
“ – Porque veio pra cá?” - A proxeneta pergunta a recém integrante da casa, a jovem Pauline
” – Para ser livre.” - Diz Pauline
” – Numa casa de tolerância? A liberdade está fora daqui.”
” – Ser puta é um trabalho para putas”.
L’Apollonide (Souvenirs de la maison close) – FRA – 2011.
Diretor: Bertrand Bonello
Roteirista: Bertrand Bonello
Elenco: Hafsia Herzi, Céline Sallette, Jasmine Trinca
Duração: 122 min.