Um dos maiores indícios que eu tive de me sentir consumindo uma arte mais madura foi quando não pude mais definir o vilão e o mocinho de uma história. Esse dualismo, na maioria das vezes, parece muito pobre, muito simplista; não leva em conta a humanidade (defeitos) do herói, nem a humanidade (qualidades) do bandido.
O contexto também em geral é menos infantil. Quando o enredo é alguém destruindo as Torres Gêmeas, ou querendo vencer o seu time de futebol americano, ou tentando acabar com o seu casamento, até um pombo consegue apontar qual é o vilão. Mas na vida cotidiana os atos de covardia ou de coragem não estão explícitos. Além disso, seu heroísmo é bem discutível: o que é ser um herói hoje em dia?
Esse foi o lado que mais me impressionou em O Cheiro do Ralo (2007), segundo longa dirigido pelo Heitor Dhalia. Não consegui classificar facilmente o personagem de Selton Mello, e considero isso uma vitória. Parabéns ao roteiro, baseado no romance de estreia do talentoso Lourenço Mutarelli, e adaptado pelo próprio Dhalia com auxílio – segunda parceria – do escritor Marçal Aquino.
Lourenço, o protagonista, compra antiguidades. Em geral, seus clientes aceitam qualquer soma pelo que vendem, e ele se lambuza da sensação de poder. Quando o cliente rejeita rebaixar seu produto a um preço ridículo, ou quando o ar da pessoa não é de submissão, mas de confiança, desaparecem as táticas negociadoras e Lourenço vira uma criança imbecil. Por ter passado a fase de necessidade de dinheiro, ele se dá ao luxo impensável de comprar o que quiser, e mandar embora quem não quer. “Não fui com a sua cara, vai embora.”
Enquanto me indagava por que ele fazia isso, sentia-me entre divertido e repugnado. Lourenço é, ao mesmo tempo, patético e abjeto. Não presta nenhuma atenção nas pessoas, foge da mãe, mas tem uma relação doentia com um pai que nunca viu. Acha que pode negociar tudo, mas afrouxa quando alguém não quer barganhar e gasta tudo para ter uma sensação de poder ou possuir algo que sua esquisitice considere valiosa. Tudo é negociado, tudo tem um preço, que é muito discutível, inclusive as pessoas.
Outra que não é fácil de classificar é a relação dele com o cheiro do ralo. Por que um homem que não liga para ninguém se preocupa no que vão pensar dele? Se o ralo é o inferno em nós, o que temos de pior, por que Lourenço não quer expor essa faceta escatológica, se ele já expõe sua mesquinhez a cada momento? As teorias que o filme tece, a fala do homem que não vende o violino, a conversa com a empregada, tudo isso pinta os detalhes do protagonista e suas obscuras motivações.
O sentido da bunda também é enorme. Ainda tento entender a relação de Lourenço com a bunda polissêmica e sua sensual dona. Meu lado mais infantil e primitivo, que gosta de finais felizes e de preferência com sexo, foi belamente tapeado. Mas não digo que é um final triste; é esquisito – e portanto, coerente com Lourenço e sua estranheza.
Nome original: O Cheiro do Ralo – Brasil
Diretor: Heitor Dhalia
Roteirista: Heitor Dhalia, Marçal Aquino, Lourenço Mutarelli
Elenco: Selton Mello, Paula Braun, Martha Meola, Lourenço Mutarelli, Sílvia Lourenço
Duração: 112 min