Depois de falar no Selton Mello (O Palhaço – 2011), não sei muito por que me lembrei do Wagner Moura. Acho que no meu universo os dois pertencem a um seleto grupinho de bons e jovens atores brasileiros que se dedicam a outros projetos paralelos ao cinema, como teatro (óbvio), direção (menos óbvio) e literatura infantil (aí Lázaro Ramos surpreende).
Fui ver o que o Wagner Moura estava fazendo pra se desvencilhar da poderosa figura do Capitão Nascimento, e descobri que ele está co-produzindo um projeto sobre Serra Pelada com Heitor Dhalia. O diretor disse há alguns meses que resolveu fazer um filme sobre a história do maior garimpo a céu aberto do mundo porque ela marcou uma época no Brasil e nunca havia sido contada nos cinemas.
Achei a iniciativa louvável. O tema é baseado em uma história real impactante, que teve uma relevância social enorme e ainda está vivo na memória de muita gente. Além disso, não será simplesmente um resgate histórico – o fio condutor será entre dois grandes amigos e as mudanças por que eles passam após chegar ao garimpo.
Esta será a segunda parceria entre o ator e o diretor; a primeira foi em Nina (2004). Além de uma excelente estreia, Heitor Dhalia dirigiu O Cheiro do Ralo (2006) e À Deriva (2009), dois grandes sucessos para um diretor relativamente jovem (ele é de 1970).
(Eu prometi a mim mesmo não tentar abordar toda a história do cinema brasileiro em cada post sob risco de ficar sem assunto na terceira semana, além de chapinhar em comentários superficiais. Então, para conhecer mais o diretor desse projeto audacioso, pensei em comentar hoje o primeiro filme do Heitor Dhalia e na próxima semana as outras produções.)
A primeira coisa que se percebe na biografia do Heitor Dhalia é que ele é um cara que não dá ponto sem nó. Ele não caiu de paraquedas no cinema. Pelo contrário, começou produzindo filmes publicitários, foi assistente de longa, diretor de um curta e co-roteirista, para só então se arriscar com Nina. Difícil imaginar degraus mais perfeitos para chegar a diretor de cinema.
Nina é um filme ambicioso, calcado em Crime e Castigo, romance de 1866 do russo Fiódor Dostoievski. A narrativa é tão universal que, mesmo a meio mundo e mais de um século de distância, permanece atual. E o roteiro de Heitor Dhalia e do escritor Marçal Aquino teve competência em se apropriar da história, abordando o cerne do que trata o romance, mas sem se fiar estupidamente aos fatos – tanto que se viram livres para tornar o protagonista uma mulher, inserir cenas inexistentes no original, além de transformar o final de uma maneira surpreendente.
Como sua fonte de inspiração, o filme é, propositalmente, pesado. Quem já leu o livro e mergulhou na história sabe que semanas de baixo-astral o acompanham. A atmosfera, nesse sentido, é muito bem construída: opressora, aflitiva, arrastada. Os protagonistas da história não são os personagens; são o dinheiro, a avareza, o egoísmo, a mesquinhez, o ódio, o medo.
Interpretada pela Guta Stresser (mais conhecida por fazer a Bebel, d’A Grande Família), Nina é uma garota extremamente perturbada por um passado difuso, cheio, parece, de ódio. Sem dinheiro e atormentada demais para conseguir se manter em um emprego, a jovem pena para conseguir alugar um apartamento de uma velha usurária odiosa. Essa vida errante oscila entre o torpor da inação – Nina encolhida na cama, acossada e vigiada pelo mundo – e instantes de uma velocidade frenética, angustiante, labiríntica, como o que precede um desmaio (nas cenas da balada, das escadas).
A câmera se mistura à sujeira e à beleza do submundo moderno de São Paulo. Cenas bonitas, bem construídas, trazem elementos belos, mostram cuidado na edição. Não há dia ou noite, apenas uma iluminação sempre dúbia, dupla. Há sutis referências à Rússia, uma pequena reverência à história original. Desenhos do talentoso Lourenço Mutarelli compõem o cenário e, animados, viram belas cenas. A trilha sonora, que varia entre eletrônico e um clássico tirante a tango, dá corpo ao filme.
Além de tudo, fazem uma pontinha no filme os quatro principais integrantes do grupinho que citei acima: Wagner Moura, Selton Mello, Lázaro Ramos e Matheus Nachtergaele. Uma abundância de talento para um primeiro longa-metragem. Na semana que vem, comento os dois outros filmes do Heitor Dhalia.