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Salada de Cinema/Coluna

Clássicos na tela

Publicado em 18/12/2011 / Por: Ricardo F. Santos

Capitu minisserie

Quando soube da estreia desta coluna sobre cinema brasileiro, o primeiro filme que pensei em assistir e comentar foi Capitães da Areia, de Cecília Amado. Não porque estivesse tão ansioso pela versão para o cinema da neta do escritor, mas porque havia acabado de ler o livro de Jorge Amado, e queria saber como a história dos meninos se sairia na tela. Romance bom faz a gente criar laços com os personagens e nos deixa ciumentos, querendo ver o que é que estão fazendo com eles por aí.

Acabei deixando para mais tarde e fui pego de surpresa, porque em menos de um mês o filme já estava quase fora do circuito, só era exibido em duas salas muito remotas. Derrotado, comecei a indagar se a adaptação teria sido boa, já que ficou relativamente pouco tempo em cartaz, e tentei lembrar de outras adaptações para cinema de clássicos da literatura brasileira que achei boas, melhores que os livros.

No primeiro momento, não me veio nada. Lembrei de Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade (1969), com Grande Otelo e Paulo José no papel principal, mas não pude deixar de achar a adaptação um tanto protocolar, como se tivesse sido feita apenas porque o livro era tão importante que precisava de uma. Não parecia que o filme tinha existência própria, mas era apenas sombra ou apêndice da história de Mário de Andrade.

O mesmo pensei das adaptações de O Cortiço (1978), Memórias Póstumas de Brás Cubas (2001) e até Budapeste (2009): apesar de terem momentos bons, não chegavam à qualidade das obras que as inspiraram. Pareciam filmes calcados no livro não por opção, mas por receio de piorá-lo.

Não acho que o filme deva conter tudo o que tem o livro, até porque dessa maneira não seria possível fazer um com menos de três horas. Mas ele deve usar a seu favor os recursos audiovisuais que só ele tem. O que vejo, no entanto, é que parece faltar a essas obras é uma edição com mais personalidade, que não apenas se restrinja ao sentido do livro, mas que o extrapole, complete e viaje até mais longe.

Estava começando a pensar que o Brasil tem uma tradição muito mais forte na literatura do que no cinema (assunto para outro dia), quando lembrei de O Auto da Compadecida (2000), que sempre me pareceu um bom filme, baseado na peça de Ariano Suassuna. Desta vez, porém, eu não poderia comparar texto e imagem, porque nunca li a peça inteira, apenas alguns trechos. Então lembrei da melhor adaptação brasileira que vi nos últimos tempos: Capitu.

Tá bom, você vai dizer, é uma minissérie, teve muito mais tempo pra desenvolver a história de Dom Casmurro e não é justo. Mas o meu ponto aqui é outro: mesmo que fosse editada para caber em duas horas, a história ainda teria sido totalmente apropriada pelo diretor Luiz Fernando de Carvalho e pelos roteiristas. O foco foi, de certa forma, deslocado do personagem principal; a trama, encadeada de uma maneira diferente; as imagens e o cenário receberam um tratamento impressionante: tudo isso construiu uma nova narrativa, que acrescenta ao romance de Machado de Assis.

Bom, quem leu até aqui já deve ter visto que eu não sou especialista no cinema nacional, nem meu repertório é tão grande. Mas a proposta desta coluna não é ser uma aula, está mais para uma (boa) conversa entre entusiastas da sétima arte. Por exemplo, se você lembrou de uma adaptação para as telas de algum clássico brasileiro que ficou melhor do que o próprio livro, por favor compartilhe para podermos continuar essa conversa.

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