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Inversão

por Cassia Alves comentários

Qual o valor do cinema independente? Uma pergunta que fiz a mim mesma, enquanto raciocinava sobre o longa que acabara de ver, “Inversão”, em cartaz em São Paulo em uma única sala, no Cinesesc. O tom independente do filme e o local escolhido podem ajudar a compreendê-lo um pouco mais, assim, para escrever sobre este filme, precisei me despir de todos os pré-conceitos formados e acreditar no valor do que acontece atualmente no cinema brasileiro.

O diretor Edu Felistoque traz um tema desmistificado para a tela: como fazer um filme de ação após o sucesso estrondoso de bilheteria de Tropa de Elite (o primeiro e o segundo)? “Inversão” é a história de um sequestro de um executivo renomado por um bando organizado e que tem de lidar com alguns percalços durante o crime.

Como contado em sua entrevista para o Salada, Felistoque quis mostrar a decadência da classe média paulistana após os acontecimentos de 12 de maio de 2006, quando a cidade foi sitiada pelo PCC, principal grupo criminoso que atua no Estado. Com a insegurança, o crime penetrado na sociedade, o diretor mostra como o grupo criminoso e a polícia que o investiga tem suas semelhanças e diferenças, além de serem fruto da estrutura social da maior cidade do Brasil.

A câmera nervosa, recurso que busca semelhança no tom documental, nos deixa inquietos diante da trama, recurso utilizado por Felistoque para provocar incômodo no público. O roteiro bem amarrado não consegue seu ápice com interpretações medianas de Rubens Caribé, Giseli Itiê, como os líderes do grupo criminoso, e Wander Wildner e Rodrigo Brassoloto, os dois policiais civis que acompanham a delegada Juliana (Marisol Ribeiro), que parecem ter se inspirado em policiais de filmes antigos e classe B.

Marisol está muito bem no filme, revelando toda a fragilidade e insegurança de uma jovem policial que se depara com o mundo do crime. Ela cresce na trama enquanto sua sensibilidade diante do mundo vai se esvaindo. A cena da tortura a um estrupador é simbólica: ao ver a foto da menina, ela não se contém e seu estômago embrulha. Logo após, tatua 213 (número da lei que condena o bandido) em sua testa, em um rito de passagem da delegada para a dureza o mundo do crime.

Outro destaque vai para a trilha sonora, que também recebeu prêmio no Festival de Toronto. Afinal, em entrevista, Felistoque revelou que se inspirou na canção “Relicário”, de Nando Reis para escrever o filme, principalmente pelos versos “O mundo está ao contrário e ninguém reparou”. Com tal influência, a trilha ganha vida no longa e papel importante em sua construção. A fotografia também é muito bem feita, revelando que o país possui grandes profissionais na área.

Resumindo: um filme que não chega aos holofotes, por tropeçar em algumas pedras. Mas que ganha pela ousadia de percorrer alguns caminhos até então nunca traçados. Ajuda sim que o cinema nacional ganhe coragem e força para crescer, cada vez mais. E que ganhe cada vez mais renome diante de todo o mundo.

Por Cássia Alves

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Cassia Alves
Cassia Alves

Pessoa nerd e jornalista chiliquenta. Dê um dramão ou um belo suspense e a veja feliz.

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