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Salada de Cinema entrevista Bruno Veiga Neto, diretor de ‘Do Jazz Ao Samba’

por Fernando Império comentários

Bruno e Diogo Nogueira, que participa do filme

Bruno e Diogo Nogueira, que participa do filme

Que tal um filme onde o principal sentido a ser explorado não é a visão, mas sim a audição? Está em fase de produção o documentário “Do Jazz Ao Samba” do diretor estreante em cinema Bruno Veiga Neto que quer trazer ao público uma bela homenagem ao samba e a bossa nova como ritmos influentes do jazz americano.

O filme terá depoimentos de grandes ícones das músicas brasileira e americana que revelam histórias e casos de amor com os ritmos abordados.

“Do Jazz Ao Samba” inova na interação com os espectadores. São eles que ajudarão a finalizar o filme através de um sistema de parceria chamado de “Crow Funding” já amplamente utilizado no exterior e que aos poucos chega ao Brasil. Nesse sistema, os espectadores, amantes do jazz, do samba e da bossa nova colaboram com uma quantia determinada e em troca participam direta ou indiretamente da conclusão do documentário.

O Salada de Cinema entrevistou o diretor Bruno Veiga Neto para contar mais detalhes do documentário e do processo de parceria. Acompanhe:

Salada de Cinema – Bruno, quais foram suas experiências anteriores com o cinema?

Bruno Veiga Neto – Eu já trabalho com audiovisual há mais de 15 anos, produzindo documentários e séries de TV para canais como Multishow, Canal Brasil, STV, etc. Destaque para a direção do programa de turismo cultural “Mastercard Destino Brasil”, que rodou mais de 200 locais do país mostrando suas riquezas naturais e culturais, sempre com foco no cinema. Também dirigi a série de musicais “Projeto Novo Canto” para a STV, programas musicais que apresentavam o melhor da nova safra de músicos sempre apadrinhados por grandes nomes da MPB. Zeca Pagodinho, Milton Nascimento, Elba Ramalho entre outros participaram desse projeto. O documentário “Do Jazz ao Samba” é a minha primeira experiência no cinema.

Salada de Cinema – Como surgiu a ideia de fazer um documentário de música, ou melhor de mistura de ritmos musicais?

Bruno Veiga Neto – Eu estava em Nova Yorque para cobrir o Festival de Cinema Brasileiro em Nova Iorque para a Inffinito, empresa realizadora, e uma amiga minha, fotógrafa, chamada Mari Vianna, me convidou para visitar um Pub de Jazz no Harlem, um dos únicos remanescentes que faz jazz para o povo, diferente de outros clubes que se estruturaram para receber turistas. Lá comecei rodando um curta metragem, mas a medida que fui entrevistando os jazzistas percebi que todos, quando sabiam que eu era brasileiro, falavam da música brasileira como se estivessem falando de algo divino. Teve um dos músicos que até aprendeu a falar português para entender as músicas da Bossa Nova, em especial Tom Jobim. Foi isso que me motivou a produzir um longa metragem sobre a influência da música brasileira no Jazz e seu reconhecimento no exterior, muitas vezes desconhecido pelo público brasileiro.

Salada de Cinema – Como foi o processo de pesquisa e a escolha dos entrevistados para o documentário?

Bruno Veiga Neto – Isso tem acontecido de forma empírica mesmo, à medida que vou entrevistando os estudiosos, músicos e entusiastas vou tendo mais informações e diretrizes para o filme. Eu não era um amante do Jazz, me tornei depois que comecei a produzir esse documentário. É impressionante começar a entender como esse gênero influenciou não só a Bossa Nova, mas a maioria dos gêneros musicais que se vê hoje inclusive no “mainstream”.

Não é de hoje que a música brasileira é venerada no exterior. Desde o advento do “Orfeu Negro”, filme que em 1960 ganhou entre outros prêmios o Oscar, que o samba misturado com a harmonia do jazz conquistou o mundo. Trazido para Nova Iorque por figuras públicas do jazz como Stan Getz e Charlie Byrd, o ritmo foi empacotado e distribuído mundo a fora como a nova sensação do momento, posteriormente gravada até por Elvis Presley e Frank Sinatra, as duas figuras mais poderosas do showbiz daquela época.

Aqui pelo Brasil artistas da “Nova Bossa” como Roberto Menescal, Carlos Lyra e Nara Leão seguiam fazendo sua música sem muito conhecimento do que estava acontecendo lá fora. Menescal conta em sua entrevista que quando chegou em Nova Iorque, deu de cara com grandes nomes do Jazz, como Gerry Mulligan, Canobal Adams, entre outros. Feliz com a “coincidência”, foi descobrir que todos estavam à sua espera, pois a versão instrumental de “Desafinado” já havia estourado por lá e todos queriam conhecer os autores desse novo ritmo, que fascinou os músicos desacostumados com tamanha “malemolência”.

O filme “Do Jazz ao Samba” vai mostrar esse processo de “exportação” da música brasileira desde Carmem Miranda, passando por Ari Barroso, Milton Nascimento, Ivan Lins, Chico Buarque até os dias de hoje, onde a música eletrônica, misturada com os clássicos do samba, lotam as pistas de dança na Europa e em todo planeta.

Nomes como Ivan Lins, Elza Soares, Marcos Valle, Diogo Nogueira, Haroldo Costa, Léo Gandelman, Tárik de Souza e Roberto Menescal já deram seus depoimentos. Também foram entrevistados artistas da nova geração, como Moyseis Marques, que participou do ressurgimento da Lapa como pólo cultural do Brasil, Marcel Powell, filho de Baden Powell e Mariana de Moraes, neta do grande Vinícius de Moraes.

O filme contará também com músicos internacionais como Will.I.Am, integrante do grupo Black Eye Peas, Jay Kay, do Jamiroquai e a cantora Norah Jones, além de outros artistas e músicos que foram influenciados e são declaradamente apaixonados pela música brasileira.

Músicos como Mike Ryan, completamente apaixonado pelo “Samba Jazz” e pelo jeito brasileiro de ser. Mike é trompetista, etnomusicólogo e compositor de samba/jazz/fusion desde o início da década de 70, já tendo tocado na Austrália, África do Sul e Brasil, onde mora há 15 anos. Aqui sua paixão virou negócio. Mike abriu uma casa de jazz na Lapa, o TriBoz, onde recebe artistas brasileiros e estrangeiros toda semana.

Ele ainda é autor do livro “SALF: Samba Brasil World Music”, editado por Almir Chediak, trabalho muito conceituado sobre os ritmos e estilos que foram influenciados pelo samba, como o samba-jazz, o samba-funk e o samba-reggae.

Salada de Cinema – O projeto está inovando ao fazer uma parceria com os espectadores. De que forma isso se derá?

Bruno Veiga Neto – O filme, assim como outros filmes do cinema brasileiro, sofre com a falta de patrocínio. Eu estou investindo do meu bolso desde o início das filmagens, mas cheguei num ponto onde preciso de verba para continuar. O processo de edição, finalização, mixagem e masterização é um processo caro. Fora os custos de aquisição de direitos para utilização dos fonogramas e material de arquivo no filme. Dependendo do que seja necessário, fica inviável sem apoio financeiro. Já recebemos propostas de exibição na Holanda, China, Canadá, Estados Unidos e Índia mesmo antes do filme ficar pronto, somente pela divulgação do trailer provisório em inglês através da internet. Pediram que mandasse o filme quando ficar pronto para avaliação. Por isso estamos correndo!

Uma solução que encontrei foi o novo sistema de financiamento já muito utilizado fora do Brasil chamado “Crowd Funding”, ou financiamento coletivo. Nesse sistema, amantes do samba, jazz e bossa nova poderão colaborar com qualquer quantia para que o filme fique pronto. São contribuições pelo cartão de crédito, com valores que correspondem a prêmios como o nome nos créditos finais como agradecimento especial, vagas em oficinas de cinema e até a aparição no filme como figurante e participação na equipe de filmagens e na edição.

Sites como Kickstarter e RocketHub já movimentam milhares de dólares em projetos de filmes, produção de Cd’s e até shows musicais.

Um dos maiores exemplos de financiamento coletivo é o do filme “Blue like jazz”, que tinha como meta arrecadar US$ 125 mil e recebeu US$ 346 mil de 4.495 americanos. As filmagens já começaram e o filme deve ser lançado ainda esse ano.

Para quem quiser participar, o documentário “Do Jazz ao Samba” está em parceria com o site Incentivador.com.

Salada de Cinema – Qual a mensagem que você pretende passar para os espectadores com o ‘Do jazz ao samba’?

Bruno Veiga Neto – O filme “Do Jazz ao Samba” não será somente um filme sobre a relação entre esses dois gêneros musicais, mas uma homenagem ao jazz e ao samba, que tanto contribuíram para a música que temos hoje, e aos amantes da boa música que irão encontrar nesse filme momentos memoráveis com grandes artistas brasileiros e internacionais. O documentário “Do Jazz ao Samba” irá colocar a música brasileira no lugar que merece, nivelado com os grandes gêneros musicais do planeta.

Veja o trailer do filme:

Teaser “Do Jazz ao Samba” from BRC1 TV & VIDEO on Vimeo.

Aqui estão os custos mínimos detalhados:

Gravações finais (incluindo o show): R$ 10.000,00
Edição e tratamento de cor do Trailler final: R$ 5.000,00
Designer para Abertura, Computações Gráficas e Animações 2D: R$ 3.000,00
Edição do filme: R$ 5.000,00
Direitos Autorais e material de arquivo: R$ 10.000,00
Mixagem de Áudio: R$ 2.000,00
(1.000) Cópias de DVDs: R$ 5.000,00
Total: R$ 40.000,00.

Por Fernando Império, editor chefe

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Jornalista, cinéfilo, tesão por inteligência e fã de filmes sem final feliz.

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