Filme peruano de 2009, é uma co-produção entre Peru, Colombia, França e Alemanha. Ganhador do prêmio do público em Sundance no ano passado, o filme correu festivais do mundo todo, ganhando também o prêmio do público em Miami e o Sebastian Award, prêmio do Festival de San Sebastian dedicado a filmes que refletem a situação homossexual.
Nada mais justo. O filme aborda com firmeza a o relacionamento entre Miguel (Cristian Mercado) e Santiago (Manolo Cardona). Miguel é casado com Mariela (Tatiana Astengo), e esperam o nascimento do primeiro filho. Residem em um pequeno vilarejo de pescadores no Peru, onde tudo gira em torno da comunidade e da igreja local. Santiago, por sua vez, é um forasteiro: mora no vilarejo apenas por conta de sua arte. Pintor e fotógrafo, sempre calado e discreto, o que gera desconfiança e comentários maldosos por parte dos nativos. Sua família, diferente dos moradores locais, possui dinheiro. Mantendo o relacionamento em segredo, Miguel e Santiago se encontram sempre que podem, na praia ou em lugares abandonados.
Como tradição popular local, quando alguém morre, o corpo deve ser oferecido ao mar, senão o espírito não descansa. Logo no início, Miguel é escolhido para ser o encarregado da cerimônia de um primo – algo de muita honra na comunidade.
Miguel e Santiago, apesar de se amarem, estão sempre em conflito. Santiago permanece no vilarejo apenas por causa de Miguel, que por sua vez rejeita o amor deste por causa da esposa e do filho. Proíbe Santiago de dar presentes a ele ou para a esposa, e também o proíbe de pintá-lo, já que Miguel é basicamente tema de seus quadros.
Apesar dos temas, relacionamento entre dois homens casados, a homossexualidade em regiões mais humildes, católicas e a homofobia internalizada serem debatidos diversas vezes em outros filmes, o filme não cai na mesmice. O toque “sobrenatural” faz diferença, tornando o meio do filme um pouco mais leve com situações bonitas e engraçadas. Sempre muito delicado, o filme trata de maneira exemplar a relação homossexual, sem apelar para cenas picantes.
Feito em 16mm, o filme tem como coadjuvante o oceano. Os longos planos na praia, ou com Miguel nadando, valorizam a locação, acentuando a poesia e a beleza do filme, mantendo sempre o tom naturalista. É um filme corajoso, que apesar da mensagem otimista, não se deixa cair no tradicional cinema de gênero GLBT. Retrata de forma correta o preconceito em comunidades latinas e mais humildes, os conflitos de quando “surge” um homossexual na família, a aceitação e o amor, independente de quem quer que seja.
Em tempos atuais, é um filme que deve ser visto e comentado, afinal, como o próprio diretor, Javier Fuentes-León, disse em uma entrevista ao Latin Dispatch: “acredito que o cinema – a arte, em geral – pode ajudar a mudar a mente das pessoas.”
Por Heitor Machado (@heec), colaborador
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